terça-feira, 29 de maio de 2012
quarta-feira, 23 de maio de 2012
3/3
De presente nunca quis nada./
Nada além de um olá como vai!/
de presente quis sempre dar o que quase nunca pude:/
as pessoas esperam que a gente /
se entregue pra elas todos os dias sem exceção./
Cansei de renunciar à verdadeira identidade/
que carrego comigo há mais de meio século./
Não sou nada além de um velho rabugento/
que ainda teima em escrever para ninguém ler./
Sou o anônimo que andeja pelas ruas /
distribuindo livros que as pessoas mais sábias jogam no lixo./
Sou o oposto de tudo que querem que eu seja:/
sou magro, careca, chato, ranzinza e feio./
Nem não sou mais o poeta que um dia/
no passado longínquo imaginei ser. /
Hoje nem num sou o escrivinhador de livros admiráveis /
que gostaria de ver as gentes lendo./
Abaixo a cabeça e sinto o cheiro do pó/
em que minha vida se transformou./
Daqui a instantes emplacarei ano novo/.
Mas quem diz que velho faz aniversário? /
Velho completa eras e eras./
E como a hera daninha/
que sobe pela minha alma cansada pelos fracassos múltiplos/
só sinto o coração se esquecer de bater/
e altivo segue seu solitário caminho apanhando da vida./
Daqui a instantes somarei mais um ano em minha era./
E ninguém chorará comigo a angústia de minha desesperança.
domingo, 25 de março de 2012
VISCERAL, CONTUDENTE E ATRATIVA OBRA DE ROMULO NÉTTO
Visceral, contundente e atrativa. Assim é a obra e a personalidade do mineiro de Paracatu, radicado há 30 anos em Cuiabá, Rômulo Nétto. O escritor lança nessa semana três livros. Com os títulos As Jagunças, Filisberto das Âncoras e Conto dos Gerais o artista apresenta o estilo diferenciado de escrita, tendo como marca a linguagem própria da mineirice interiorana e ainda assim relevante, intelectual, brilhante. O jornalista escreve de forma certeira, ora sem pontos finais ou vírgulas ou ainda qualquer outro artifício para pausar a leitura. Desse modo narra, sem rodeios, a vida de homens e mulheres desse mundão de meu Deus.
Em Filisberto das Âncoras há a narração de um tantinho da vida de um sertanejo lá da bandas das Gerais. Um sujeito que com a força típica dos homens daquela região, um destino para lutar e uma vida para defender segue seu rumo em busca de algo melhor que possa aparecer algum dia. Neste livro há ainda uma denúncia do sistema político e econômico de herança feudal. A crítica política é vigente com o relato das ordens que partiam dos coronéis que ofereciam misérias como presentes e violência em abundância mantendo assim o voto dos eleitores mais pobres (maioria) no cabresto.
Com uma linguagem bem mineira, a forma de escrita nessa obra pode causar estranhamento nos mais desavisados, além de usar a oralidade do vocabulário regional e invenções de grafia há o abandono ao uso dos sinais de pontuação. O texto segue sem vírgulas, apenas ponto.
Em Contos Dos Gerais marca a edição de diversos contos feitos por Rômulo e que o inserem na lista dos bons escritores da literatura regionalista brasileira. Nesse livro Rômulo deixa transparecer a influência que autores como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos tiveram em sua formação de escritor.
O humor também está sempre presente na obra de Rômulo, bem como a ausência dos sinais de pontuação o que acaba fazendo com que o fluxo da narrativa fique mais acelerado e por vezes capaz de deixar o leitor sem fôlego. A apresentação do livro é assinada pela doutora em comunicação pela USP e professora de português e Literatura Brasileira na UFMT, Cristina Campos ela afirma que essa obra é para apreciação dos leitores iniciados. "Vencidas as primeiras páginas, o estranhamento provocará a surpresa da novidade, o deleite de (re) conhecer um tipo que, apesar de exaltado e imortalizado pela Literatura e pela Arte, permanece à margem do sistema, sobrevivendo na sombra".
O jaguncismo típico do sertão tem sua plenitude em As Jagunças, obra que busca relatar a vida de personagens mulheres que fazem-se brutas para enfrentar a hegemonia no mundo masculino. "A vida delas não teve parágrafo, nem travessão, avisando quando deveriam nem se poderiam falar. Pontuar suas falas seria uma extravagância desnecessária", escreve a doutora em educação pela USP e professora de português e Literatura Brasileira na UFMT, Lucia Helena Vendrusculo Possari na apresentação do livro.
O autor-Romulo Nétto, 63 anos, é jornalista formado pela Universidade de Brasília, UnB, também implantou a editora universitária na UFMT, onde hoje é aposentado. Apesar de detentor de talento e sensibilidade únicas ele tem a particularidade de viver em Mato Grosso, o que poderia explicar o "ainda anonimato" de sua obra. "Tenho parentes, amigos e conhecidos por todo o país e todos falam que se eu estivesse no sul ou sudeste do país minha obra seria mais reconhecida. Não sei se é só isso, mas também não me importo", conta o autor de mais de 20 livros, entre publicados e engavetados, entre eles Ameríndia, Lua de Papel.
Para Romulo o processo de escrita é quase psicográfico, embora ele não acredite na influência de espíritos. "Não paro para pensar em que ou quem vou escrever, as coisas fluem naturalmente como sempre estivessem dentro de mim em algum lugar que eu desconhecia. Me surpreendo às vezes com o resultado", confessa.
Com o que ele se importa? "Me importo em transpor minhas lembranças e jogar para o papel os personagens que exigem que suas histórias sejam contadas e que vivem em algum lugar do meu inconsciente. Não tenho expectativas, se isso puder emocionar alguém será incrível", declara.
Leidiane Montfort
(Jornal A Gazeta-Cuiabá-MT)
Em Filisberto das Âncoras há a narração de um tantinho da vida de um sertanejo lá da bandas das Gerais. Um sujeito que com a força típica dos homens daquela região, um destino para lutar e uma vida para defender segue seu rumo em busca de algo melhor que possa aparecer algum dia. Neste livro há ainda uma denúncia do sistema político e econômico de herança feudal. A crítica política é vigente com o relato das ordens que partiam dos coronéis que ofereciam misérias como presentes e violência em abundância mantendo assim o voto dos eleitores mais pobres (maioria) no cabresto.
Com uma linguagem bem mineira, a forma de escrita nessa obra pode causar estranhamento nos mais desavisados, além de usar a oralidade do vocabulário regional e invenções de grafia há o abandono ao uso dos sinais de pontuação. O texto segue sem vírgulas, apenas ponto.
Em Contos Dos Gerais marca a edição de diversos contos feitos por Rômulo e que o inserem na lista dos bons escritores da literatura regionalista brasileira. Nesse livro Rômulo deixa transparecer a influência que autores como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos tiveram em sua formação de escritor.
O humor também está sempre presente na obra de Rômulo, bem como a ausência dos sinais de pontuação o que acaba fazendo com que o fluxo da narrativa fique mais acelerado e por vezes capaz de deixar o leitor sem fôlego. A apresentação do livro é assinada pela doutora em comunicação pela USP e professora de português e Literatura Brasileira na UFMT, Cristina Campos ela afirma que essa obra é para apreciação dos leitores iniciados. "Vencidas as primeiras páginas, o estranhamento provocará a surpresa da novidade, o deleite de (re) conhecer um tipo que, apesar de exaltado e imortalizado pela Literatura e pela Arte, permanece à margem do sistema, sobrevivendo na sombra".
O jaguncismo típico do sertão tem sua plenitude em As Jagunças, obra que busca relatar a vida de personagens mulheres que fazem-se brutas para enfrentar a hegemonia no mundo masculino. "A vida delas não teve parágrafo, nem travessão, avisando quando deveriam nem se poderiam falar. Pontuar suas falas seria uma extravagância desnecessária", escreve a doutora em educação pela USP e professora de português e Literatura Brasileira na UFMT, Lucia Helena Vendrusculo Possari na apresentação do livro.
O autor-Romulo Nétto, 63 anos, é jornalista formado pela Universidade de Brasília, UnB, também implantou a editora universitária na UFMT, onde hoje é aposentado. Apesar de detentor de talento e sensibilidade únicas ele tem a particularidade de viver em Mato Grosso, o que poderia explicar o "ainda anonimato" de sua obra. "Tenho parentes, amigos e conhecidos por todo o país e todos falam que se eu estivesse no sul ou sudeste do país minha obra seria mais reconhecida. Não sei se é só isso, mas também não me importo", conta o autor de mais de 20 livros, entre publicados e engavetados, entre eles Ameríndia, Lua de Papel.
Para Romulo o processo de escrita é quase psicográfico, embora ele não acredite na influência de espíritos. "Não paro para pensar em que ou quem vou escrever, as coisas fluem naturalmente como sempre estivessem dentro de mim em algum lugar que eu desconhecia. Me surpreendo às vezes com o resultado", confessa.
Com o que ele se importa? "Me importo em transpor minhas lembranças e jogar para o papel os personagens que exigem que suas histórias sejam contadas e que vivem em algum lugar do meu inconsciente. Não tenho expectativas, se isso puder emocionar alguém será incrível", declara.
Leidiane Montfort
(Jornal A Gazeta-Cuiabá-MT)
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