quarta-feira, 23 de maio de 2012

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De presente nunca quis nada./ Nada além de um olá como vai!/ de presente quis sempre dar o que quase nunca pude:/ as pessoas esperam que a gente / se entregue pra elas todos os dias sem exceção./ Cansei de renunciar à verdadeira identidade/ que carrego comigo há mais de meio século./ Não sou nada além de um velho rabugento/ que ainda teima em escrever para ninguém ler./ Sou o anônimo que andeja pelas ruas / distribuindo livros que as pessoas mais sábias jogam no lixo./ Sou o oposto de tudo que querem que eu seja:/ sou magro, careca, chato, ranzinza e feio./ Nem não sou mais o poeta que um dia/ no passado longínquo imaginei ser. / Hoje nem num sou o escrivinhador de livros admiráveis / que gostaria de ver as gentes lendo./ Abaixo a cabeça e sinto o cheiro do pó/ em que minha vida se transformou./ Daqui a instantes emplacarei ano novo/. Mas quem diz que velho faz aniversário? / Velho completa eras e eras./ E como a hera daninha/ que sobe pela minha alma cansada pelos fracassos múltiplos/ só sinto o coração se esquecer de bater/ e altivo segue seu solitário caminho apanhando da vida./ Daqui a instantes somarei mais um ano em minha era./ E ninguém chorará comigo a angústia de minha desesperança.

domingo, 25 de março de 2012

VISCERAL, CONTUDENTE E ATRATIVA OBRA DE ROMULO NÉTTO

Visceral, contundente e atrativa. Assim é a obra e a personalidade do mineiro de Paracatu, radicado há 30 anos em Cuiabá, Rômulo Nétto. O escritor lança nessa semana três livros. Com os títulos As Jagunças, Filisberto das Âncoras e Conto dos Gerais o artista apresenta o estilo diferenciado de escrita, tendo como marca a linguagem própria da mineirice interiorana e ainda assim relevante, intelectual, brilhante. O jornalista escreve de forma certeira, ora sem pontos finais ou vírgulas ou ainda qualquer outro artifício para pausar a leitura. Desse modo narra, sem rodeios, a vida de homens e mulheres desse mundão de meu Deus.
Em Filisberto das Âncoras há a narração de um tantinho da vida de um sertanejo lá da bandas das Gerais. Um sujeito que com a força típica dos homens daquela região, um destino para lutar e uma vida para defender segue seu rumo em busca de algo melhor que possa aparecer algum dia. Neste livro há ainda uma denúncia do sistema político e econômico de herança feudal. A crítica política é vigente com o relato das ordens que partiam dos coronéis que ofereciam misérias como presentes e violência em abundância mantendo assim o voto dos eleitores mais pobres (maioria) no cabresto.
Com uma linguagem bem mineira, a forma de escrita nessa obra pode causar estranhamento nos mais desavisados, além de usar a oralidade do vocabulário regional e invenções de grafia há o abandono ao uso dos sinais de pontuação. O texto segue sem vírgulas, apenas ponto.
Em Contos Dos Gerais marca a edição de diversos contos feitos por Rômulo e que o inserem na lista dos bons escritores da literatura regionalista brasileira. Nesse livro Rômulo deixa transparecer a influência que autores como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos tiveram em sua formação de escritor.
O humor também está sempre presente na obra de Rômulo, bem como a ausência dos sinais de pontuação o que acaba fazendo com que o fluxo da narrativa fique mais acelerado e por vezes capaz de deixar o leitor sem fôlego. A apresentação do livro é assinada pela doutora em comunicação pela USP e professora de português e Literatura Brasileira na UFMT, Cristina Campos ela afirma que essa obra é para apreciação dos leitores iniciados. "Vencidas as primeiras páginas, o estranhamento provocará a surpresa da novidade, o deleite de (re) conhecer um tipo que, apesar de exaltado e imortalizado pela Literatura e pela Arte, permanece à margem do sistema, sobrevivendo na sombra".
O jaguncismo típico do sertão tem sua plenitude em As Jagunças, obra que busca relatar a vida de personagens mulheres que fazem-se brutas para enfrentar a hegemonia no mundo masculino. "A vida delas não teve parágrafo, nem travessão, avisando quando deveriam nem se poderiam falar. Pontuar suas falas seria uma extravagância desnecessária", escreve a doutora em educação pela USP e professora de português e Literatura Brasileira na UFMT, Lucia Helena Vendrusculo Possari na apresentação do livro.
O autor-Romulo Nétto, 63 anos, é jornalista formado pela Universidade de Brasília, UnB, também implantou a editora universitária na UFMT, onde hoje é aposentado. Apesar de detentor de talento e sensibilidade únicas ele tem a particularidade de viver em Mato Grosso, o que poderia explicar o "ainda anonimato" de sua obra. "Tenho parentes, amigos e conhecidos por todo o país e todos falam que se eu estivesse no sul ou sudeste do país minha obra seria mais reconhecida. Não sei se é só isso, mas também não me importo", conta o autor de mais de 20 livros, entre publicados e engavetados, entre eles Ameríndia, Lua de Papel.
Para Romulo o processo de escrita é quase psicográfico, embora ele não acredite na influência de espíritos. "Não paro para pensar em que ou quem vou escrever, as coisas fluem naturalmente como sempre estivessem dentro de mim em algum lugar que eu desconhecia. Me surpreendo às vezes com o resultado", confessa.
Com o que ele se importa? "Me importo em transpor minhas lembranças e jogar para o papel os personagens que exigem que suas histórias sejam contadas e que vivem em algum lugar do meu inconsciente. Não tenho expectativas, se isso puder emocionar alguém será incrível", declara.

Leidiane Montfort

(Jornal A Gazeta-Cuiabá-MT)

Romulo Nétto é um passeio pela boa literatura

O encontro não poderia ter sido em melhor data: aniversário de Mato Grosso. Não que Romulo Nétto seja mato-grossense. Nascido em Paracatu, Minas Gerais, Romulo veio para o Estado em 1971 para trabalhar como jornalista na Universidade Federal de Mato Grosso. Desde então nunca mais saiu, só quando se aposentou, aos 47 anos, e passou um período no Nordeste. Escritor, muito mais que jornalista, ele é daqueles sujeitos que não esquecem de onde vieram. É como se Romulo tivesse saído de Minas, mas Minas nunca tivesse saído dele.
Lançando logo de cara uma trilogia no dia 12 de maio, que mistura muito de sua vida em Paracatu e de suas histórias com a família e amigos, o autor traz a literatura quase como um modo de viver. Aos nove anos Romulo já escrevia. Um dos irmãos dizia que ser escritor só poderia dar em duas coisas: ficar louco ou morrer de tuberculose. Se ele ficou louco ainda não se descobriu, mas a tuberculose não o pegou.
O quinto filho de oito o autor conta que a infância passou entre “roubar” frutas e galinhas dos vizinhos. “Tínhamos o mapa dos galinheiros da cidade. O melhor ali daria pra ladrão”, conta. Mas a vida provou o contrário. Um dos irmãos mais velhos trabalha há mais de 20 anos como jornalista na União Européia, Romulo entrou de primeira na sempre tão concorrida Universidade de Brasília (UNB). “Hoje, olhando pra trás, percebo que os ‘ladrões de galinha’ conseguiram vencer na vida. Os mais abastados de Paracatu nem faculdade fizeram”, analisa.
As três obras de agora têm uma ordem que deve ser respeitada. “Filisberto das Âncoras” é o primeiro. Filisberto (de feliz) é um sertanejo em meio a um sistema político e econômico de herança feudal onde os coronéis manipulam seu eleitorado. Romulo mostra através do personagem principal um homem forte, corajoso, honesto e humilde, aquele tipo de sujeito que vive à margem da sociedade e nada recebe. Filisberto é aquele que sobrevive no limite.
“As Jagunças” e “Contos das Gerais” chegaram juntos. Uma característica bem peculiar do autor, que faz até 4 livros ao mesmo tempo, todos escritos à mão e depois passados para o computador. “Teve vez de sentar na varanda e ficar com dois cadernos na minha frente. Minha filha chegou em casa um dia e pensou que eu tinha endoidado. Que nada. Tem hora que penso em uma coisa e essa coisa é pra determinado livro. Paro, escrevo e depois volto para o que eu estava. Sempre foi assim”.
O diferencial de “As Jagunças” é que só há personagens femininos. São 21 mulheres no meio do sertão lutando pela sobrevivência. Ali, como afirma no prefácio do livro a professora Lucia Helena Vendrusculo Possari, mulher não é gênero, é sexo. A obra pode assustar o leitor por não ter pontuação, no máximo uma exclamação ou dois pontos. “A vida dessas mulheres não tem travessão e nem ponto final. Elas lutam e não param”, explica. Em “Contos das Gerais”, Romulo busca mais uma vez no Brasil sertanejo sua inspiração. O autor conta de forma brilhante histórias de gente rústica e ao mesmo tempo doce, gente de brio e que não tem medo de assumir o que é.
O sertão e Minas Gerais não sai de Romulo nenhum instante durante todas as obras, mas esse quase “banzo” que o escritor sente não significa ao mesmo tempo uma aversão a Mato Grosso. “Amo esta terra. Foi aqui que conheci minha esposa, que tive minhas filhas. Mas não se apaga um passado. Minas está em mim até a raiz”. A escolha pelo sertão Romulo explica sem titubear: “sou caipira, não poderia escrever sobre outra coisa”.

Por Isa Sousa
Publicado originalmente no Correio de Mato Grosso

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A ROUBALHEIRA DA REDE CEMAT

Aprendi com meus pais a distinguir o certo do errado. Enxerguei desde os tempos da Universidade de Brasília (anos áureos da ditadura) que as concessionárias dos serviços públicos eram obrigadas a prestar a seus usuários serviços de excelência.
Mineiro, jornalista e sobremaneira metódico aprendi que deveria zelar por meus interesses. Não poderia ser diferente com uma concessionária de serviços públicos.
Os anos foram passando e eu me assustava com os aumentos constantes do consumo de energia embora não tivesse adquirido nenhum equipamento para justificar o aumento.
Comecei a desconfiar da então Cemat. E a desconfiança gerou um sistema de controle diário. Preparei minha planilha onde anotava, todos os dias, o consumo a data e o consumo do dia anterior.
Fiquei estarrecido ao constatar que estava sendo, invariavelmente roubado, pela Cemat.
Os tempos passaram e a Cemat mudou de nome e de dono. Nada mudou, senão o aumento da roubalheira.
Resido no bairro Boa Esperança desde dezembro de 1981. Há sete anos nossa filha mais velha decidiu estudar em Curitiba e logo depois a mais nova tomou o mesmo destino. Agora, somos apenas minha mulher e eu nesta casa.
Temos duas televisões – uma de 32 polegadas e outra de vinte. O consumo mensal das duas é de cerca de 270 watts/h. Se as deixo em stand by o consumo não ultrapassa 0.15 watts hora, o que raramente acontece. Uma geladeira com consumo mensal de 60 kwh; um aparelho som com consumo (mas quase nunca ligado) de 400 watts; uma lavadora de roupa tipo tanquinho (a mais usada), quatro horas, uma vez por semana; uma lavadora de roupa Consul. Três lâmpadas de 15 watts que permanecem acesas das 19 às 6 horas da manhã, Um microcomputador que uso por três horas diárias; o ferro elétrico que é ligado no máximo por duas horas, um dia da semana. Dois umidificadores de ar para cinco litros de água (apenas um funciona durante dez horas noturnas). Dois ventiladores de teto que consomem 120 watts hora e ficam ligados por 16 horas dia (oito horas cada um).
Fiz meus cálculos e cheguei aos seguintes resultados;
Ar condicionado: 101 kw/h/mês; Tanquinho (consumo de 0,06 kw/h/ciclo – são quatro ciclos especificação do fabricante) 2,0 kw/h/mês; Geladeira: 60 kw/h/mês: Televisões: 83,7 kw/h/mês; Ferro elétrico: 9,6 kw/h/mês; Máquina de lavar Consul: 0,13 kw/h (especificação do fabricante) 2,8 kwh/mês; Lâmpadas de 15 watts: 1,60 kw/h/mês; Aparelho de som: 200 watts/h/mês; Umidificador de ar:1,0 kw/h/mês; Ventiladores: 59,50 kw/h/mês; Liquidificador: 0,50 kw/h/mês; Batedeira: 0,50 kw/h/mês; Chuveiro elétrico: 2,0 kw/h/mês; Computador: 15,60 kw/h/mês. Consumo total mensal aproximado: 338,80 kw/h
Vale salientar que há mais de dez anos faço a leitura diária do medidor de energia, anotando dia, mês e consumo. Para se ter ideia do rombo em meu orçamento eis o consumo kw/h/ nos seguintes meses: nov/11: 560; out/11: 560; set/11: 500; agos/11: 500; jul/11: 400; jun/11: 460; mai/11: 540; abr/11: 470; mar/11: 570; fev/11; 640; jan/11: 700.
A Rede Cemat informa na última fatura que o consumo médio dos últimos três meses foi de 536 kw/h. A diferença entre o consumo médio apontado pela concessionária e o que acredito realmente consumir é brutal. São aproximadamente 197,20 kw/h/mês.
Ouço notícias de residências com aparelhos de ar condicionado de 18.000 buts que ficam ligados o dia inteiro e ao final do mês o consumo é bem inferior ao meu. Sei da existência de “gatos” nas casas dos poderosos e a Rede Cemat faz acintosamente vistas grossas, talvez defendendo seus próprios interesses.
Não acho justo que tantos milhares de consumidores paguem pelo excessivo consumo de poucos. Exijo que a Rede Cemat tome uma providência séria em relação aos velhos medidores, por serem em sua grande maioria, obsoletos e viciados.
Prestei queixa à Rede Cemat no dia 26.9.11. Em novembro fiz o mesmo procedimento junto à Agência Nacional de Energia Elétrica. Fui informado que a Rede Cemat durante inspeção realizada in loco não detectou nenhum problema no equipamento de medição, tais como, interligação ou vazamento de energia até o ponto de entrega. Se tal inspeção ocorreu, enquanto proprietários, minha mulher e eu não participamos dela. O mais grave: por problemas de saúde não consigo sair de casa, estou com elevadíssimo nível de ferritina (posso anexar caso a ANEEL e a Rede Cemat interessem o comprovante dos exames realizados) e não consigo me locomover além de cinqüenta metros. Não dirijo, aliás, nunca dirigi um veículo. Portanto não há como a concessionária alegar que encontrou a residência sem nenhum morador para atender seus funcionários na data mencionada. Como a Rede Cemat faz inspeção e não nos convoca para participar, mesmo como simples, mas interessadíssimos observadores, da mesma? Sou um velho, mas não estou esclerosado. Se a Rede Cemat quer continuar roubando que o faça com outros, comigo não.
Como cidadão brasileiro, em pleno gozo de seus direitos constitucionais e de suas faculdades mentais, exijo que a Rede Cemat comprove com minha assinatura a inspeção realizada em minha (nossa) residência, faça a inspeção dos equipamentos que possuo nela para comprovar o gasto apresentado nas faturas e, principalmente troque o medidor de energia por um novo, sem vícios, talvez ocasionado pelos longos anos de uso, talvez...
Jamais deixei de quitar as faturas dessa malfadada empresa, aliás trata-se de débito em conta e há sempre fundos suficientes para cobri-lo.
Houve um incidente quando não morava em Cuiabá, acusaram violação do medidor de energia. A casa estava “alugada”, moradores e eu assumimos a responsabilidade, mesmo sem dever. Não devo e jamais deverei a uma empresa que se enriquece explorando grande parte de pessoas que não sabem de seus direitos ou que têm medo de procurá-los.
Eu não temo a Rede Cemat e nem quaisquer possíveis ameaças advindas deste artigo, inclusive da mudança do medidor de energia por outro viciado que aumente sumariamente o consumo da unidade consumidora...
Ressalto ainda dois fatos importantíssimos: orientado por um engenheiro eletricista efetuei a mudança (há cerca de um ano e meio) de toda a fiação, pois os fios antigos poderiam estar provocando fuga de energia. Não houve diferença no consumo. O segundo fato porque num dia o gasto é de 10 kw, no outro 20 e num terceiro 30? E os equipamentos ligados são os mesmos, o tempo quase sempre o mesmo. Ar condicionado (com timer), ventiladores, máquina de lavar roupa, ferro elétrico e lâmpadas, invariavelmente são utilizados com o mesmo número de horas. E quando a casa ficou fechada por cinco dias, apenas a geladeira ligada, todos os aparelhos foram desconectados das tomadas e o consumo medido foi de 50 kw/h? Como?!!! E como já afirmei a geladeira consome 60 kw/h/mês.
Espero que este artigo sirva de alerta para os milhares de consumidores da Rede Cemat que estão sendo lesados diariamente sem o saber.
Exerça seu direito de cidadão denunciando os abusos da Rede Cemat telefonando para a Agência Nacional de Energia Elétrica através do telefone 167, ligação gratuita de telefone fixo.