sábado, 8 de junho de 2013

Poemas de Os Deserdados da Sorte

39. Para o vivente que tem/ de espiar nas lonjuras/ a proximidade da comida/ a cegueira de um olho/ é pior que a cegueira das letras. 40. Um olho só lhe basta/ para enxergar a miséria do mundo. 28. Se lhe ardem os olhos/ pela fumaça tanta/ se lhe dói o estômago/ pela fome tanta/ se lhe incham os beiços/ pela sede tanta/ ainda haverá esperança/ Filisberto? Quanta?! 29. Nunca um salário teve/ nunca um natal festejou/ trapos - de roupas lhe servem -:/ de seu só o nome Filisberto/ recebeu honrou. Por Romulo Netto - Escritor e jornalista

sexta-feira, 7 de junho de 2013

PLUG

Ia indo, solitário, lendo estrelas, revendo sertões, decifrando esquecidas, mal-dormidas luas sem que vivalma, por pequenina fosse, ousasse acompanhá-lo. Ele um pobre favorecidamente reconhecido deserdado das sortes, que, no bom andar de seu esquartejado destino, punha a cara bexiguenta à prova dos murros e urros da molecada. Em sua ruamundo tudo girava pra trás. Ele buscava sempre passear na contramão da vida, enquanto nos pequizeiros, as pombas do bando reinavam. Se dizia sozinho. Mas de suzim mesmo só tinha um buriti perdido no meio da selvagem vereda azul que sorrateira sobreviveu entre morrotes agarrados ao descampado, onde o Urucuia resolveu beber as águas de fracotes riachos. Sentado sobre rachados calcanhares, escarafunchou unhas negras corroídas pelos pedregulhos, assuou duas vezes seguidas as narinas cabeludas, olhou vago pro céu assuntando as horas, sentindo pequena comichão na mão esquerda, ou foi na direita? O dedo indicador se torceu em contorcida dor de apertar gatilhos. Em sua paz mórbida, experimentou se renascer novamente no sangue derramado de próximos defuntos. Fosse pelo contrário. O sertão era sua roupa preferida. Nem o diabo travestido da mais faceira morena tomava sua atenção. Gastava horas magicando caminhos outras vezes regressos. O futuro não sabia como lidar com seus antecipados pensamentos. Era tão distraidamente perdido como se tudo não passasse de desafios pro tempo. De quando em quando se engabirobava esperando maduras cascavéis com intuito único de vê-las sofrendo, esperando despencar amarelado fruto que teimava resistência não cedendo nunca, antevendo de véspera que o chão daquele cerrado sempre foi sinônimo de morte. Logo ele viril patrão de seu desanonimado destino. Por certo jamais se cedera em angústias, mesmo quando a fome, a sede, o cercavam nas mais plenas voracidades. Acreditava que nascera pra se perder em derradeiras glórias encontradas nas bandas esquerdas do Urucuia ou, sabe-se lá, mesmo até nas próximas sofridas águas do desavisado Paracatu. Ele que nunca foi seu dono, agora, depois de tanto sol resvalando pelo velho chapéu furado se via possuído por senhor desconhecido. Viramundo. Vira-lata faminto, sanguinário. Porco sedento, desenfreado. Herói de machucados instantes. Um só que se busca no buscar dos outros, que se olha penetrando no terceiro olho do que nunca foi ou jamais será. Plug marcou sua vida sobre tantos destinos, pouquíssimos sóis, luas derradeiras. Descansou sob a sombra de esquecidos jatobazeiros, bebeu da água das pequenas cacimbas anfitriãs, jantou no descampado dos sertões milagreiros as carnes ensopadas de tatus encardidos pelos tempos imemoriais, sobressomados, sobreamassados por mandiocas amarelas de prenhez precoce. No sonhar de seu pesadelo príncipe, desejou mumificar todos os gostos como se o estômago satisfeito conseguisse reter o milagre da alimentação per omnia secula seculorum. Mal completara vinte e cinco anos, quando decidiu arranchar a vida perto de secular cumbaruzeiro que o tempo pariu esquecendo no pós-depois das terras do coronel Teodoro Fuquefuque. Fincou ali dúvidas, saudades, dores, lembranças, sonhos e ilusões. Mais que isso. Jurou de pés juntos sair dali só morto. Suzim, suzim mesmo, não arredaria um piscar de olhos. Bom pois! Assim fosse, se sucedesse. No quê! Ele, seus santos, entrecortados por imensa curriola de santas, desafiariam sertões, cerrados, no justo distribuir de sentenças sem defesas ou desavenças. Se somaram alguns penosos anos de solidão, até que Nhá Parteira perdida, ou pode té ser deixada de propósito, pôde descortiná-lo peladão, peladim nadando num vai-vem profundo nas foscas águas do Urucuia. Meio que desavisada, desavergonhada, gritou pelo moço implorando adjutório. Era de justa necessidade chegar o quanto antes nas terras de seo Izé Cabedelo onde assistiria Sinhá Mocinha em seu parto de difícil primeira parição. Um olho no tresoitão, outro meio que avermelhado na peixeira afiada, moveu o corpo vagaroso, mas acobertado de decisão. Ouviu os rogos da parteira, torceu a boca, coçou o subaco com a mão esquerda, deixando entender que a de bom uso estava livre. Peladão, peladim. Saiu das mornas águas como veio ao mundo, deixando seus balangandãs sacudirem ao ar em frenética música ancestral. Se pôs em guarda já sabendo que de graça ninguém chegava àqueles pagos. Antes, bem antes, de mirar os olhos de Nhá Parteira, pegou pequeno pedaço de fumo goiano do picuá, preciso, mas com vagar, cortou esparramando em seguida sobre a fina palha de milho. Olhou pro longínquo horizonte sobrefechando seu olho ruim, ao mesmo tempo em que enrolava o palheiro. Desatencioso, procurou seu binga no bolso da calça mesmo sentindo o peso sobre o coração. Acendeu o pito. Somente após sentir na cara a fumaça quente, o cheiro suave do fumo, se deixou conduzir pela trepidante conversa da alquebrada parteira. Ali lançara sua sina. Se conduziu ou foi conduzido pela contagiante conversa da velha-moça. Gastaram horas de perdidos sóis, enfraquecidas luas, até chegarem aos domínios de seo Izé Cabedelo. Três ou quatro homens descansados, de pronto, se ergueram quando ouviram os lamentos de Nhá Parteira. Pra eles naquela hora ela nem existia. Mediram de rabo a cabo o acompanhante. Relutantes, deixaram que o estranho seguisse em frente rumo à casa-grande. Deus e o diabo seriam testemunhas do que viria daí em diante. ROMULO NÉTTO - JORNALISTA PLUG - publicado originalmente no livro Tarenço, o Capanga de Lata - Carlini & Caniato Editorial

BEATO TERGISALO

Há muito tempo decidiu fazer jejum – de silêncio. Cinco anos ou mais sem proferir uma só palavra. Tudo começou quando deslizou sua canoa da primeira margem do Escuro Grande, sentindo que não adiantava mais sofrer. Não tinha nenhuma dor disponível no estoque para desativar o coração abalado pela perda da mulher e do filho assassinados em morna manhã pelo beato Tergisalo. Quem encontrou os corpos maltratados foi Nhacema. De susto, saiu em desabalada carreira gemendo, gritando como tivesse visto o tal, o dianho. A vila inteira acudiu ao escarcéu de louca; ninguém ousou acreditar no que os olhos viram. O pobrezinho todo estropiado, rasgado da goela até o umbigo num rasgão só. Era sangueira esparramada casa adentro, casa afora. No final da tarde, com a enxada sobre os ombros, ele chegou da rocinha. Admirou de ver aquele povaréu ao redor de seu casebre. Só pôde entender quando deparou com a mulher e filho estirados no jirau, de mãos postas, olhos fechados. Mal esperou o enterro pra se perder no mundo; os olhos juravam vingança, a boca nada dizia. Destrinchou Arinos, Buritis, subiu desceu as serras das Almas do Boqueirão, vasculhou pela Canastra, remou rio Verde abaixo, bandeando de João Pinheiro para o rio da Prata, caindo no córrego Rico, volteando pro Escuro Grande, onde sentou “praça” de barqueiro solitário em sua dor constante. Pescava o dia inteiro: pacus, dourados, piracanjubas; limpava, punha pra secar; esta sua moeda. Vendia ou trocava por sal, farinha, arroz de luxo passageiro, um naco de fumo de corda, café. Ninguém bulia com ele ou lhe passava a perna. Combinavam preço, tamanho, prazo. A encomenda certa no tempo exato. Tudo dentro de seus conformes: sua lei seca de palavras e gestos. Foi remando a vida como remava sua canoa pelas águas tranqüilas do Escuro Grande. O coração quieto sabia que a vingança tinha dia, hora marcados, questão de aguardamentos. Soube de conversas alheias que o beato Tergisalo passara pela Canastra, Retiro, Bocaina, mas pretendia se estabelecer com o bando de fanáticos nas Veredas, fazendona antiga de desdeixados donos mortos em morte duvidosa quinem o doutor delegado de Paracatu conseguiu descobrir autores ou mandantes. O coração sobressaltou desordenado causando sensações, inquietudes estranhas tidas-havidas como de tempos finais esquecidas. Sabe-se hoje estavam apenas adormecidas. Noite dia, dia noite escondidinho na caverna onde secava defumava seus peixes, ouvia o embrenhar dos jagunços do beato Tergisalo procurando seus rastros. Já se fizera de manhãzinha quando ouviu um chamado do outro lado do Escuro Grande. Não era barqueiro atravessador de gente, mas sabia como penava qualquer cristão que desejasse transpor o rio caudaloso naquele extremo. Não divisou acompanhantes. Pegou o remo; sua tralha de pescaria não saía nunca da canoa, nem a papo-amarelo escondida sob a surrada capa Ideal. Vinte minutos depois, estava ancorando na outra margem. — Dia! — Com o dedo apontado em riste mostrou onde o chegante se acomodasse. O outro falante declinou o nome: beato Tergisalo. O sangue se transformou em vulcão dentro do corpo. Todo o passado veio à tona. O beato indagou se as terras de Nhaporá ficavam praquelas bandas. Meneou a cabeça assentindo. Pra ouvir mais, arriscou oferecer um gole de cachaça. Tergisalo bebeu, aprovou. Soltou a língua. Destravado o falatório, Bitão escutou horrores. Como a mulher fora assassinada; os requintes de crueldade quando o beato dançando em círculos se empapuçava comendo o coração de seu filho. A margem pareceu-lhe um século para chegar. Sisudo, jogou as tralhas no chão e pegou a capa segurando sua arma encoberta. Num piscar de olhos, puxou a parabélum. Varou o joelho de Tergisalo que caiu uivando de raiva. Depois de cinco anos, recobrou a fala: — Este foi procê nunca mais andá! Atirou nas palmas das mãos; foi desfiando seu rosário de dores, quase a perder o fôlego, contou que a mulher e a criança mortas eram sua família. Tergisalo suspirou. Um suspiro profundo quando a última bala penetrou entre os olhos. ROMULO NETTO - JORNALISTA E ESCRITOR O conto Beato Tergisalo foi originalmente publicado no livro Contos dos Gerais. Carlini & Caniato Editorial

MOÇA NA BICICLETA

Costumeiramente, nós a víamos pedalando sua bicicleta Leão de pneus finos pelas ruas do Santana, Alto do Córrego, caminhos estreitos da Chapadinha. Na Direita, ela parava sempre pra trocar um fiapo de prosa com Julinha, Rosilene, Célia, Nira, dona Enedina e Preta. Era muito singela. Lavínia, embora fosse da família mais rica de Nasquebradas, carregava no sangue a simplicidade. Naquela manhã ensolarada, ela desceu da bicicleta e ficou especulando como tínhamos nos saído nas provas parciais. Segredou-me que estivera péssima em Matemática. Se esforçava pra compreender as explicações do professor Gesner, mas de nada adiantava. No segundo semestre, tinha que fazer média boa pra não ser reprovada, senão o destino seria o colégio São Domingos, em Araxá. Alguns minutos depois, Lavínia foi embora deixando-nos com o coração em frangalhos, acelerado. Também pudera. Estava vestida com um short minúsculo, deixando entrever que dispensava calcinha. Os bicos dos seios duríssimos apontavam em nossa direção como dois punhais. Corremos a turma toda pra casa grande, velha construção abandonada ao lado da Santa Casa de Misericórdia, e nos perdemos numa punheta que pareceu durar horas. Cada um de nós possuiu Lavínia inúmeras vezes em nossos sonhos. Loucuras de inverno prenúncio de primavera. Todos tínhamos vontade de convidá-la pra passear mas na hora “h” perdíamos o fôlego com medo de um não. Nunca saberemos se recusaria um convite. A sexta-feira amanheceu ensolarada, bonita. A Lyra Euterpe Nasquebradense, desde cedo, atacou furiosa com seus dobrados, marchas anunciando que o dia de São Cristóvão seria alegre, festivo com desfile de caminhões, charretes r carroças como acontecia todos os anos. Depois do café com bolo de arroz em profusão como tínhamos combinado, iríamos à rua Goiás assistir ao desfile; lá pelas nove, rumaríamos pro São Sebastião, onde pretendíamos passar o restante da manhã até a tarde. Vovô junto com Cadinho ficou encarregado de preparar as varas de pescar, iscas, faca, sal, farinha, matula e uma lata pra fritarmos os pescados. Quem sabe alguns piaus, na pior das hipóteses: no açudão havia uma fartura de piabas graúdas. Do Santana até o São Sebastião, caminhada pra mais de hora. Sempre a fazíamos parando à cata de alguma fruta, às vezes de um tatu, ou de uma preá que, com sorte, abatíamos: início de nossa farra juvenil. Aquele São Cristóvão não havera de ser diferente. No alto do céu azul despossuído de nuvens, o sol prometia brindar o dia com muito calor. Mais que isso, jamais sonharíamos. Juntos, buscamos nosso recanto: João Queijo, Vovô, Cadinho, Edvar, Anum-Branco, Izebeiju, Pexico, Robertim, e eu. As meninas pediram, insistiram, choraram, rogaram pragas tentando nos convencer a deixá-las nos acompanhar. Nem que não. A estrada era longa, as meninas só atrasariam nossa jornada. O sol estava a pino. Tiramos as camisas; as costas ardiam quando atingimos a porção norte do açudão. Era o ponto mais farto de piaus, piabas, além de guardar as pedras que transformávamos em fogão pra fritar ou assar peixes, nambus, tatus. Da estrada, viemos de mãos abanando. Restava a pescaria ou a descoberta de frutas; fome, porém, não teríamos, pois trazíamos na matula farinha, rapadura, alguns pães. Meia hora de pescaria. O jacá já estava quase cheio, pelo menos uns dez piaus que se debatiam movimentando de um lado pro outro aquele cesto de bambu deixado dentro d’água pra conservar vivo o pescado. De repente, ouvimos um grito. Quem achou primeiro a bicicleta, logo depois o corpo, foi João Queijo que preferia buscar frutas ao invés de dar banho em minhoca, como ele definia nossas pescarias sempre. Corremos todos. Lá estava ela nua. Os seios duros com sinais de mordidas selvagens; o sexo machucado, as pernas grossas torneadas longas manchadas de sangue. Os olhos expressando terror, incredulidade. A garganta com corte profundo. Nossa Lavínia morta, estuprada. Raspava os cabelos da parte de baixo em forma de estreito triângulo eqüilátero de cabeça pra baixo, pouca espessura, em olhar de relance acredito não mais que meio centímetro de altura. Apesar de machucada e morta, nunca vi Lavínia tão perdidamente linda. A lembrança de sua xandanga coberta por aqueles tênues fios de cabelo em forma triangular, até hoje decorridos mais de quarenta anos, não me sai da cabeça. Nem sei bem como reagimos. Decidimos que Queijo e eu iríamos correndo pra Delegacia. Mais de uma hora depois, chegamos com o coração na boca, o terror estampado na cara. Só conseguimos dizer: — Seo Adriles! Lavínia está morta na beira do açudão. Ele gritou pelo Cabo colocou-nos na traseira do Jipe e rumou pro local indicado, seguindo a estrada que conhecia de cor, salteado. Dez minutos depois, já estava examinando o corpo de Lavínia. Ao lado de um pé de caju do mato, encontrou pequena faca de cabo de chifre de boi. Apenas sorriu, pensando alto que o crime estava solucionado. Mandou-nos pra casa. O Jipe levaria o corpo de Lavínia pro necrotério do Hospital do Vale. Foi a última vez que vimos Lavínia. Faltou-nos coragem para olhá-la dentro do caixão... Romulo Nétto - jornalista e escritor O conto Moça na Bicicleta foi originalmente publicado no livro Contos dos Gerais, Carlini & Caniato Editorial.

É PROIBIDO LER - por Romulo Nétto

A notícia varreu os quatro cantos do País. O povo estava sendo chamado pra participar da grande marcha cívica em comemoração ao dia da Independência. Ninguém de sã consciência se atreveria a faltar a tão importante evento. As mães devotadas aos filhos começaram a costurar roupas de gala, queriam, todas elas, que seus filhos fossem eleitos os mais elegantes e bem vestidos. Até as pobrezinhas das favelas se esmeraram em aproveitar restos de panos e costurar vestidos, calças e camisas pra seus rebentos. Carros com sistema de alto-falantes foram esparramados por todos os bairros das cidades conclamando o povaréu a comparecer ao dia mais importante da República. O que o povo não sabia é que nos quartéis havia intensa movimentação conspiratória pra derrubar o governo. A crença era de que o presidente dera forte guinada pra esquerda e em breve adotaria o regime comunista. Os militares não podiam aceitar pacificamente a mudança de regime. Urgia uma tomada de posição e nada melhor do que conclamar o povo pra participar com toda sua energia. As ruas foram embandeiroladas de verde e amarelo, símbolo maior de amor à pátria. Das janelas das casas e dos prédios públicos despencavam enormes bandeiras do País. Os ânimos ferviam nas ruas. Nas câmaras de vereadores, assembleias legislativas e no Congresso Nacional oradores exaltados se alinhavam contra e a favor da marcha pela liberdade. Não encontravam o menor indício de mudança na condução do regime político, ninguém suportaria prisão perpétua, julgamentos sumários, deportação pra ilhas distantes, trabalhos forçados, tortura. Não! Essa ideia era inadmissível. Algo andava muito errado! Os coordenadores do movimento acertaram em cheio. O povão queria mesmo era pão e circo. A seleção brasileira de futebol foi convocada às pressas pra efetuar diversos amistosos, com inexpressivas agremiações do Caribe e da África. Estavam procurando tapar o sol com a peneira. Seo Miguelim, vendeiro de longa data, assíduo leitor de jornais, ouvinte contumaz da Rádio de Moscou, desconfiou daquela movimentação. Alisou seus bigodes e pensou em voz alta: Marx não será vencido! Acredito que era o único verdadeiro comunista no Estado, o resto era de enfeite, corria de uma ideologia pra outra de acordo com seus interesses. Ele não! Nunca abandonou a leitura das obras de Marx, embora não aprovasse o regime imposto por Joseph Stalin, depois seguido por Nikita Kruschev. Aqueles ditadores não conheciam os limites entre o dever do Estado e os direitos dos cidadãos. Eram criminosos comuns, investidos nos mais altos cargos do Comitê e não representavam a essência da doutrina marxista. A bodega de seo Miguelim não ficou ornada com a bandeira do Brasil, nem com bandeirolas verdes e amarelas. Tampouco colocou uma foice e martelo simbolizando sua crença. Fiel a seus princípios, mas amante inveterado das coisas brasileiras, não sairia defendendo, de armas nas mãos, comunismo ou democracia, fosse o que fosse esperava o melhor pro povo. Muitos tinham o mesmo pensamento que seo Miguelim, porém despossuíam a coragem explícita do velho bodegueiro. O que mais o assustou foi a movimentação na rodovia que cortava a cidade. Os caminhões com soldados fortemente armados, com alguns mísseis e tanques cruzavam a estrada rumando pra Capital Federal. Pra ele não se tratava meramente de simples comemoração do dia da pátria, mas da derrubada do governo legalmente constituído. Os dias passaram e os mais pequeninos povoados, cidadezinhas que mal se encontravam nos mapas, até as maiores capitais estavam engalanadas. O povo acorreu às praças em clima de festa e alegria incontidas. Nos edifícios milhares de pessoas começaram a jogar papel picado que caía em cascata simbolizando a adesão ao chamamento pra comemorar tão significativa data. Enquanto o povão aplaudia o desfile cívico-militar, na Capital Federal, as tropas das três forças cercaram o palácio presidencial forçando a renúncia incontinente do mais alto mandatário do País. Nas ruas das cidades com maior população os estudantes nem tinham acabado de exibir seus uniformes de gala quando a notícia extraordinária do principal jornal da televisão explodiu: — os militares acabaram de depor o presidente da República. Foi um período duro de transição. Milhares de jovens, mulheres, funcionários públicos, artistas, escritores, políticos e gente simples do povo acabaram atrás das grades ou em campos de futebol transformados em prisões. Estava implantado o regime de exceção. Os anos foram passados e a população acabou por conviver com a ditadura, mesmo sem entender a razão de tão drástica mudança. Alguns poucos formaram movimentos clandestinos de combate ao regime ditatorial e eram caçados ferozmente pelo que denominaram forças da repressão. Seo Miguelim ficou transtornado quando viu o pelotão policial se aproximar da bodega. Atrás vinha a multidão constituída pelos principais dependuradores de contas do seu pequeno estabelecimento comercial. Com o dedo em riste o apontavam e gritavam: — prendam ele! Ele é comunista! Vive falando de um tal de Karl Marx! – O velho bodegueiro se assustou com a ferocidade da turba, que semanas antes não deixava o balcão, passando horas ouvindo contar histórias acontecidas na época da Segunda Grande Guerra Mundial. Não representava perigo algum, senão pra seus devedores, pois que suas contas um dia seriam cobradas. Quem pensar que o calejado comerciante era bobo se enganou completamente. Guardou em lugar bem protegido todas as cadernetas, já antevendo que mais cedo ou mais tarde seria levado pra prisão. Quando saísse cobraria, de todos, com juros e correção monetária a divida, não pela dívida em si, mas pela falsidade! Os tempos passaram e os militares reconheceram que tinham cumprido, mais uma vez, seu papel na História. Decidiram convocar eleições pra vereadores, prefeitos, deputados estaduais, governadores, senadores e presidente. A maior parte da população achou que a notícia era brincadeira de mal gosto de repórter sem ter o que fazer, mas não! A Junta Militar que governava o País fez pronunciamento em rede nacional de teleisão comunicando que a missão estava concluída e que a democracia fora plenamente restabelecida. O assanhamento do povo foi geral. Em poucos meses o que mais se via pelas ruas eram santinhos espalhados pelo chão, enormes cartazes de candidatos, faixas enaltecendo fulano ou sicrano como o melhor candidato. Uma balbúrdia sem fim. Não piorassem as coisas porque os militares estavam de olho no procedimento dos civis e se necessário fosse interviriam novamente. Pra seo Miguelim, civil no poder significava corrupção e era o que mais temia. Dinheiro público destinado à Saúde, à Segurança Pública, à Educação e às tão necessárias obras de infraestrutura seriam desviadas, como sempre foram, para as contas de políticos nos maravilhosos paraísos fiscais e não havia um só promotor ou juiz federal capaz de enfrentar a máfia infiltrada nos governos. Não lamentou o tempo passado nos porões da ditadura. Lamentou isto sim, a volta ao poder dos velhos caciques que agora vinham com apetite redobrado. As acirradas campanhas eleitorais pra todos os níveis pipocavam exaltando todos os ânimos. Inventaram partidos que possuíam apenas dois ou três filiados. A perniciosa proliferação de siglas fora instituída pra mais tarde cobrar dos eleitos o preço do apoio. Em breve seria implantada a máxima de São Francisco: é dando que se recebe. E como os urubus da política receberiam! O País acordou em festa no três de novembro, dia da eleição. Cabos eleitorais emporcalharam as ruas e ruelas de todas as cidades, esparramando santinhos de seus candidatos, a grande maioria constituída por analfabetos, fichados na polícia por crime de corrupção. Mas o processo eleitoral era um vale-tudo incomensurável. Seis candidatos concorreram à presidência. Os dois mais bem votados disputariam o segundo turno. Com quarenta e quatro por centos dos votos, Asdrúbal Camaleão foi o candidato da oposição, antigo aliado do regime, ele pensava que era benquisto pelos militares. Em segundo lugar, com vinte e oito por cento ficou Marginaldo Sinfrônio. A bem da verdade o segundo colocado não era páreo pra Asdrúbal Camaleão, cujo nome já dava pra ter vaga ideia de sua esperteza. O povão estava atarantado com as promessas de Asdrúbal Cameleão. No primeiro ano de seu governo não existiria mais nenhum desempregado no País, todas as estradas seriam asfaltadas, construiria milhares de escolas e hospitais, importaria as mais modernas armas pras polícias, implantaria moderno sistema único de saúde pra população carente, coisa de fazer inveja aos países do primeiro mundo. Logo após sua posse não foi bem isto o que se viu publicado no Diário Oficial. Os ministros de Estado, escolhidos a dedos, eram notórios componentes das máfias que durantes anos desviaram milhões de dólares dos cofres públicos, mesmo inclusive no período da ditadura. Encontrar um indicado honesto em qualquer dos escalões do governo era tarefa mais difícil que achar uma agulha no palheiro. A outra grande surpresa veio estampada no Diário Oficial do segundo dia de governo. Um decreto determinava o fechamento de todas as bibliotecas públicas, sob a alegação de que todas seriam reformadas, enquanto o edital da maior licitação pra aquisição de novas obras estava sendo preparado. O jornal oficial não alcançava a grande massa, mas a televisão sim. Estarrecidos entrevistadores se postaram diante do palácio presidencial à cata de maiores esclarecimentos. Não havia engano. As bibliotecas estavam terminantemente proibidas de funcionar até que o processo licitatório fosse concluído e as obras entregues. Não havia a menor condição de recorrer, também não havia pra quem. Absurdos daqui, absurdos dali, e Asdrúbal Camaleão foi levando seu governo de desmandos, sem que acontecesse o menor esboço de resistência. O Congresso Nacional não estava engessado. Era simplesmente corrupto, fazia o que o presidente determinava quando as emendas eram liberadas. Sem emendas, sem dinheiro no bolso. A única reação nascia e crescia no seio das universidades federais. Indignados alunos e professores começaram a movimentar criando subterrâneo movimento de resistência. Alunos e professores dos ensinos fundamental e médio se aglomeraram ao redor da primeira grande manifestação contrária às atitudes de Asdrúbal Camaleão. Chamava constantemente o ministro da Justiça procurando encontrar brechas na lei pra enquadrar alunos e professores, sem sucesso, Era preciso editar um decreto, pois temia demora na aprovação de medida provisória. Tinha o Congresso nas mãos, mas não sabia até quando. E os desmandos continuaram assustando a população. Obras começavam e paravam mal concluídas as fundações. Nos hospitais públicos a falta de medicamentos e materiais pras cirurgias era uma constante. As estradas não suportavam o transporte das sucessivas safras de grãos, que batiam todos os recordes. Nas escolas, até mesmo nas universidades os alunos eram obrigados a levar suas cadeiras, pois os equipamentos públicos estavam em pandarecos. O crime organizado dirigia até os presídios de segurança máxima. Nas favelas os cadáveres de integrantes de facções rivais apodreciam. Os rabecões caindo aos pedaços não eram suficientes pra transportá-los pro Instituto Médico Legal e nem havia profissionais suficientes pra realização de tantas autópsias. Nos aeroportos o movimento era intenso, milhares de pessoas decidiram sair do País temendo uma guerra civil. Enquanto isto Asdrúbal Camaleão reinava impunemente. Inconformado com a queda de popularidade determinou o fechamento de todos os jornais e editoras, exceção feita ao Diário Oficial da União. Em sua extremada loucura mandou publicar no dia da Independência o lacônico decreto: Decreto número 2001. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere a Constituição da República Federativa do Brasil, DECRETA: Artigo lº – É proibido ler. Artigo 2º - Este Decreto entra em vigor na data de sua Publicação. Brasília, 7 de setembro de 2020, 208º da Independência, 131º da República. A indignação com o ato presidencial foi generalizada. Estivesse ladeado por assessores capacitados não teria cometido a mais tremenda de todas as suas burrices governamentais. As crianças do ensino fundamental foram as primeiras a repudiar o decreto. Incitaram os pais a rebelar contra a extremada medida. A revolta alastrou-se país afora. Nos dias seguintes a movimentação tomou corpo e milhares de ônibus rumaram pra Capital Federal. Aqueles pequeninos se sentiram ultrajados com a proibição da leitura nas escolas, nas pracinhas, em casa. Certo é que o governo não tinha como fiscalizar, mas só a truculência do aparato policial já era suficiente para inibir o prazer de apanhar um livro na estante e começar a lê-lo. Os mais importantes jornais do mundo estamparam nas primeiras páginas enormes manchetes e extensas reportagens expondo o terror implantado pelo primeiro presidente civil pós ditadura militar. A Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes ficaram pequenas pra abrigar tantas crianças que abriram suas faixas exigindo a renúncia do presidente da República. Elas não queriam a revogação do decreto, pois ardiloso como demonstrara ser, logo arranjaria outro meio de tentar amordaçar a população. Acamparam. Promoveram estardalhaço de tal magnitude que ninguém conseguia trabalhar, fosse nos ministérios, fosse no Congresso, no palácio presidencial ou no Supremo Tribunal Federal. O embate prosseguiu com o presidente tentando resistir ao pedido de renúncia. Os congressistas começaram a debandar, esvaziando a base aliada. Asdrúbal Camaleão se viu perdidamente só. No palácio não restou um só funcionário que fosse, mesmo o menos graduado. Apenas a secretária, que de quando em onde, servia seu cafezinho e as refeições que ela mesma preparava. E mais ônibus chegaram transformando as imediações da torre de televisão e o Palácio Buriti em acampamento. A criançada amadureceria ali, sem temer qualquer represália. Foram semanas de comoção até que, na única atitude sensata, Asdrúbal Camaleão optou por renunciar à presidência da República. Agora as crianças podiam voltar novamente a ler.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O ÚLTIMO TIRO

Na verdade não sei quantos anos fiquei perdido naquele pensamento. É bem possível que tudo não tivesse passado de um sonho ruim, mas o final ficou lá posto: o corpo do homem estendido no chão, bem diante dele, eu e minha fumegante arma de fogo. Ora bolas foi apenas mais uma morte. Mas porque aquele pequenino demônio que decidiu fixar sua moradia dentro de mim continuava martelando em minha cabeça todas as aquelas miseráveis lembranças? Não bastava eu ter sido predestinado pra ser o executor de um homem que nunca dantes tinha visto na vida? Era pouco sabê-lo casado, pai de três filhos pequeninos, feitos em escadinha, marido de mulher exemplar, que jamais abriu a boca pra xingar o menor dos passarinhos? Filho de pais amantíssimos que todos os domingos descambavam de seus pagos, atravessando o perigoso riacho de águas tortuosas, o famigerado Filó Preto, pra passar os mais doces momentos com nora, netos e o filho perdidamente tão querido? Era pouco saber que finei sem o menor remorso uma pessoa que nunca atravessou meu caminho, e jamais ousou olhar-me nos fundos dos olhos ou dirigir uma só palavra, por mais pequenina que fosse? E o diabinho lá dentro de mim apenas atiçando fogo nas cangalhas do pensamento: — qual o quê foi apenas ato de justiça, seu lugar no inferno depois desta está mais do que garantido! Se pensava, via o sangue escorrendo, os gemidos, os olhos estatelados, o chegar do estertor da morte, o momento do ir-se embora sem ter sabido a razão da morte, ou não saberia ele? Por certo que sim, pois se fui incumbido de cumprir a missão, o dito lá já morto deveras devia de reconhecer que seu fim se aproximava a largos passos, só que não presumia que ele estivesse tão próximo. E como estava. No fundo de meu coração doía aquela dor fininha, desengonçada, tremeliqueira, desavisada, desavergonhada, corroendo o de melhor de mim, sempre acusando os abusos cometidos. E lá estava eu ligando pra alguma coisa que não fosse receber pelo serviço pago? Fui, ou melhor, nasci pras incumbências solenes das jagunçagens e difícil por demais dizer que teria melhor destino não fosse o enveredar por esse caminho de sangue. Sangue feito e construído de dor e sofrimento, de angústias, revezes, alegrias (pra quem mandava executar), tristeza pra quem cumpria a sina de fazer o trabalho. Tudo isso é só uma mesma coisa que a gente tenta escapulir do significado, mas o marcante da violência fica resguardado na mente. Pior ainda, o danadinho do cramulhão, o pé de gancho que não perde um só momento de ficar assoprando nos ouvidos da gente: — muito bem valentão! Você provou mesmo que é cabra duro na queda, machão, dos de confiança, daqueles que se conta em todas as horas. Tô contigo e num abro! E se me foram dados os minutos de arrependimento. Bem sei não consegui qualquer significado de guarida. Tinha feito tiro certeiro. Infeliz de mim que sabia de meu precoce destino mesmo bem antes dele acontecer. Sempre foi assim. Nunca nada ocorrera sem que nos miolos moles meus pingasse uma ponta de indicação, como anunciando: amanhã você acabará com uma pomba de bando! E não é que mal e mal amanhecia e a primeira coisa que via na frente era ela e, eu, sem dó nem piedade punha a pedra no estilingue e atirava. Tanta certeza tinha da morte da pobre ave que corria de olhos fechados só pra ter o prazer de apanhar a bichinha que ainda estrebuchava. Acabava com seu sofrimento torcendo o pescoço, correndo pro riacho mais próximo pra depená-la, abri-la tirando suas partes, cortando em pedaços e assando ali mesmo na beira do mato. Ficava feliz? Ara se ficava, de imensa felicidade pra não perder de vista e fôlego. Nasci pra ser cruel. Mas, aquela hora não saía de minha cabeça. Difícil esquecer aquele momento, como se ele tivesse vindo pra marcar presença eterna. A forja da maldade estava instalada dentro de mim desde criança e, agora me sentindo adulto, sabia que não existia distanciamento entre o passado, o presente e o futuro que mal e mal se avizinhava. O que pintava na minha frente não parecia boa coisa. Acontece que mesmo desconfiado de tudo tinha pequena ponta de prazer em torturar, massacrar, aniquilar qualquer vivente que surgisse. Não importava o tamanho, peso, se era bicho de plumas, rasteiro. Cobras, lagartos, teiús, jacarés, passarinhos, o que os olhinhos espichados pra bem ver de longe alcançassem já estava preparado pra trucidar, esfolar, assar e devorar com apetite assassino. A história parou no meu peito, encravando unhas felinas não deixando que esquecesse o destino cheio de sangue que, de pouco em pouco, deixaria pelo meu longo caminho. Talvez por algumas horas me sentisse possuído pelo demo, mas acho que não era bem assim. Nascera predestinado pra ser ruim. Não adiantaria nada tentar fugir do que já fora escrito pra ser minha vida bem antes mesmo do nascimento. Tava tudo lá posto no livrão que me acompanharia em cada passo dado. Um tiro! Uma queda! Uma vida! Qual maior prazer pra mim senão o de sentir detentor de decisões extremadas? Não era um bode velho, caquético, doente. Invés disso, possuidor de fortaleza corporal e mental invejável. A boca demonstrava o prazer enorme que sentia ao despachar quem fosse pro outro lado da vida. Céu? Inferno? Nem nunca quis saber aonde o dito cujo ia, sabia apenas que tinha despachado mais um. Tão só! Por Romulo Nétto - as duas primeiras páginas do meu livro inédito O ÚLTIMO TIRO.

SERTÃO DE SANGUE

Dizia que estrelas são almas penadas que vagavam pela imensidão do céu depois de desocuparem os corpos aqui na terra. Indagado sobre a razão pela qual elas não se moviam escapulia com as respostas mais extravagantes.  Uai! É que elas não gostam de ser observadas. Então quando o mundo adormece, elas começam a dançar rasgando o infinito azul com seus rabos enchameados, parindo fogo, buscando lugar pra se esconder dos maldosos olhares humanos. E quem de nós podia contestar suas verdades? Arguto como são os matutos profundos conhecedores das mentes, adivinhadores dos mais tênues e tenebrosos pensamentos ele não escondia suas desconfianças: o homem está ficando cada vez mais ganancioso e perigoso. Parava um momento. Cofiava a barba rala, picava o fumo de corda, alisava a palha de milho, aprontava o cigarro e se perdia num pitar sem fim. Tava pouco ligando se o dia se renderia ao calor do sol. Logo ali, a dois palmos e meio de distância, a vereda estava pronta pra receber seu corpo nu, acariciando as partes, refrescando a mente, pondo na cachola mais coisas pra desvendar.  Hum! Hum! Pra que mais descobertas a fazer?  Venerava seus muxoxos e não sabia a razão de suas espertezas. Nunca dormia com os dois olhos fechados. Essa prática antiga salvou-lhe a vida diversas ocasiões. Ninguém sabia de onde arrancava o dinheiro que usava pra pagar, religiosamente as despesas que fazia nas vendas do vilarejo. Ladrão ele não era, pois jamais arredara os pés da região. Trabalhar mesmo, aquele trabalho duro, suado, empreitadas de sol a sol, não era muito chegado. Mas dinheirinho curto, contado, de notas amassadas e moedas meio carcomidas pelo tempo, ele tinha pro sustento e dava de sobrar de quando em onde um pouco. Não que fosse mão de vaca. Gastava com parcimônia e certeza de quem se proibia cometer excessos. Luxo? Não! nem num era chegado a tais desesperos. Amava a noite como nós amamos as mulheres. Seu prazer maior era ficar escarafunchando o céu esperando a primeira estrela aparecer, com seu brilho fogoso, convidativo, pra boa pitada ou generosa primeira e única dose noturna da cachaça escolhida a dedo entre as inúmeras garrafas da venda de seo Jacó, o turco desnaturado. Do lado da casinha a mirrada horta com dois ou três pés de tomate, couve, pimenta malagueta, batata doce em profusão. Mais ao largo as bananeiras, mangueiras, laranjeiras e o imenso cajueiro que frutificavam o ano inteiro. O poço que furara a duras penas, mas recompensado pela fartura d’água, que mesmo nas maiores secas jamais o deixara com sede. Dali retirava latas e latas pra regar sua pequena horta e as plantas. No pequeno cercado os dois pangarés de estimação. Mal punha os pés fora da casinha e os bichos despencavam numa danadeira de relinchos, aguardando a comida farta. Milho, capim picado com carinho e prazer, além da necessária colherada de sal fino. Quando sentia saudade das redondezas selava um dos animais e disparava mundão afora, mesmo sabendo que o outro cavalo ficava relinchando, pisoteando raivoso o chão duro, furioso por não ter sido o escolhido. Até parecia que o bicho pensava, dizer dele. E varava o dia, pra na volta trazer buritis, gabirobas, às vezes um tatu, noutras vezes uma capivara. Passava horas limpando e manteando suas caças. Gostava de chupar as frutas deixando o forte caldo escorrer pelo queixo empapando a barba que apresentava os primeiros sinais de embranquecimento. O chão cavucado há tempos imemoriais estava sempre pronto esperando apenas que pedaços de angico fossem colocados e acesos. Ali ele passava horas assando suas caças. O mundo não lhe dava outras coisas pra fazer e se sentia recompensado com o poder ficar à toa, descompromissado com o tempo, apenas preocupado em viver sua vida da maneira mais pachorrenta possível. Assim era aquele matuto: um sábio da natureza. Precoce em seus conhecimentos sobre flores, frutas, pássaros e bichos rastejantes ou não. Ouvido apurado distinguia de longe por onde uma onça desavisada preparava seu pulo, ou a cascavel aguardava sua comida. Vez por outra praticava pequenas maldades apanhado dos ninhos das aves os ovos com os quais preparava a farta farofa com couve e pedaços de toucinho de barrigada de capivara. Esparramava o corpo na velha e carcomida rede, colocava sobre o tamborete o bule com café escaldante e na velha lata de goiabada a farofa. Enchia a mão e lançava na boca escancarada empurrando goela abaixo com boa golada de café que descia queimando e rasgando o peito. Por vezes tossia, mas logo se acalmava. Dizia que nada mais falta lhe fazia. Mas pensando bem talvez uma mulher fizesse a diferença. Qual o quê! Ele não se dava ao desfrute de sair zanzando à noite pelos dois únicos bares da cidade à cata de companhia feminina, menos ainda, frequentar a missa mensal apenas porque lá poderia encontrar fermoso rabo de saia. Domingo pra ele não era dia de ir até o vilarejo, senão de tirar a alpercata de carreiro, chafurdar os pés no lodo das beiradas veredianas, esquecer-se por longas horas, deixando o sol tisnar-lhe ainda mais a pele curtida pelas longas cavalgadas ou caminhadas com o torso nu. De longe divisou a aproximação de três cavaleiros. Quem diabos enfrentaria aquele sol de inferno vestindo grossas capas Ideal? Boa gente decerto não seria e também não lhe pareceu que viessem carregados em boa paz. Por Romulo Nétto - as primeiras páginas do livro SERTÃO DE SANGUE, a ser lançado brevemente.