sábado, 8 de junho de 2013
BASTINTIM
Bastintim
Desde pirralho, demonstrava ter parte com o coisa ruim. Nascera pra viver a vida pelo avesso. Enquanto outras crianças brincavam com carrinhos de bois feitos de sabugo de milho, mangas, mamonas, sua diversão era degolar pintinhos no terreiro do sítio onde morava. Houve uma vez que levou boa surra de Honorato por ter trucidado mais de vinte numa só manhã.
Apanhou até as costas ficarem marcadas com sulcos profundos em carne viva. A mãe assistiu a tudo sem poder socorrer o filho. Justo o castigo.
Quando indagado o que seria ao crescer, dizia apenas: jagunço. Cutucado pra outras respostas, falava que queria sentir gosto de sangue na boca, ver como os olhos do desinfeliz ficavam diante do revólver pronto pra disparar a morte iminente. Os pais decidiram deixá-lo de lado. Bastintim não tinha conserto. Só causaria dor, tristeza, por onde andejasse. Nem bem completou doze anos, furtou a espingarda e o cavalo do pai, caindo no mundo. Melhor assim, sem choro nem despedidas.
Vagueou por veredas, riachos, dormiu ao relento, em cavernas, sempre à espreita de algum bando que o acolhesse. Sentiu na pele a dureza da solidão sem reclamar. Não tinha também pra quem. Essa a vida que escolhera.
Entrava nos vilarejos onde trocava teiús, tatus, frutas por mantimentos que no mato não conseguia. Um pouco de sal, café, rapadura, até mesmo bom naco de fumo goiano. Deitado debaixo de um pé-de-pau ou na caverna, gostava de dar breves baforadas no cigarro de palha que indesde criança aprendera a fazer pro pai.
Desconfiado, assuntava nas vendas sobre brigas políticas, desavenças por heranças de terras, fugitivos das cadeias afilhados dos coronéis. Colhia daqui dali informações que permitiram tecer o perfil ideal do bando de que faria parte ou criaria pra aterrorizar as divisas do noroeste das Gerais com Goiás.
Enquanto o destino não se cumpria, começou praticando pequenos furtos, estuprando mocinhas despreocupadas que gastavam horas tomando banho nuas em pêlo no Riacho Doce. A fama do desconhecido correu o cerrado, despertando a atenção do coronel Zaú. Com as constantes pelejas com o povo do Retiro Alto, ele bem que precisava de um destemido jagunço talequal esse se lhe aparentava. Despachou doze homens com a finalidade de trazê-lo por bem ou por mal, a ferro fogo.
No decorrer de oito anos fugindo de caçadores, Bastintim aguçou os ouvidos, podia distinguir se o estalo de um galho quebrado a centenas de metros fora causado pelas patas de onça pintada ou de homem. De longe, sabia contornar o ninho de cascavel, percebia o som do chocalho como se estivesse segurando com as mãos. Essa experiência salvou sua vida inúmeras vezes.
Os homens do Coronel Zaú jamais sonhariam com a matreirice de Bastintim. Conhecia cada palmo daquele sertão cerrado. Só seria encontrado se assim decidisse.
Um mês depois que o bando saiu do Brejo Encantado, divisou três homens bem armados. Conhecia de vista um deles. Era jagunço de confiança do coronel. Resolveu mantê-lo sob estrita vigilância. No momento exato, daria o pulo do gato. Na terceira semana de espreita, desconfiou que o jagunço pressentira sua presença, pois mudara radicalmente de hábitos. Já não deixava a parabélum presa no coldre; a faca estava na bainha, mas sem amarras, fácil de ser retirada, manuseada.
Por não saber das intenções do pequeno bando, o melhor seria aguardar os acontecimentos.
Observou de longe com a luneta confiscada da Casa Rocha que o jagunço estava cevando pacas. Aquele seria o ponto ideal prum encontro. Por certo, ficaria na espera, em jirau improvisado aguardando os animais acostumados com a farta comida. Depois do tiro certeiro, o jagunço desceria para apanhar a presa; um bom atirador, em ocasiões tais, matava pelo menos três animais. O jagunço mal colocou os pés no chão e sentiu o cano frio do chimitão pressionar os rins.
A conversa durou menos de cinco minutos na avaliação de Bastintim; pra Zuzu Cabelo-de-fogo, pareceu a eternidade.
Acalmados os ânimos, esclarecidos os motivos do rastreio, os quatro buscaram a caverna da Onça Pelada onde passariam a noite saboreando um assado de pacas.
Bastintim ouviu, contou histórias entre gole outro de boa cachaça dos alambiques paracatuenses. Pra seu governo, a oferta do Coronel Zaú: irrecusável: cama, comida, mulheres, bebida, dinheiro, proteção. Estava com a vida que o coisa ruim lhe reservara.
Nos três anos seguintes, o noroeste das Gerais foi varrido por uma onda de assassinatos, roubos, estupros, nunca antes imaginados. Bastintim tomou gosto pelo sangue, jagunçagem, cabaços. Em cada vila, vangloriava estuprar pelo menos três ou quatro moças; nas rodas de viola, gabava-se que saía das vilas com o pau esfolado de tanto penetrar cus, xandangas. Não tinha remorso nem piedade. Perto dele, o Belzebu era santo.
Na coronha da papo-amarelo tinha quarenta marcas; quarenta mortes sem contar as causadas pelo chimitão, a parabélum, as degolas com peixeira.
As façanhas de Bastintim causavam medo até no Coronel Zaú, que, acovardado, planejou acabar com a vida de seu protegido.
Traçou plano meticuloso com três homens de estreita confiança. Esses, em conluio com os recém-chegados baianos a mando do Coronel Valêncio, cuidariam da execução quando a maioria dos fazendeiros passava a semana inteira em comilança nas festas do Bom Senhor, em Buritis. Coronel Zaú não faltava uma vez sequer. Ninguém o acusaria da morte de seu braço direito. Afirmando ter fechado a compra de quinhentas cabeças de gado na fazenda Buriti Perdido, despachou Bastintim com homens que escolhera pra cumprir a tarefa.
Na cabeça de Bastintim, algo não soava bem. Qual a razão de ter sido o escolhido? Era homem de ação, de pistolagem, não de aquisição e transporte de gado. Um sinal emitido pelo cérebro colocou o ouvido treinado em constante alerta. Qualquer descuido, por menor fosse, lhe custaria a vida.
Fazia suas necessidades por trás de um frondoso pequizeiro, quando ouviu Zuzu Cabelo-de-fogo ordenar o tiroteio cruzado já amplamente treinado pra pôr fim à vida de Bastintim.
Ele não contava com a presença, a poucos metros, de Malalá e seu bando espreitando o gado do Coronel Zaú.
Ao iniciar a troca de tiros, Cabelo-de-fogo foi apanhado pelas balas vindas do veredão. Atônito, correu até Bastintim. Furioso, atirava a esmo. O momento chegara. Puxou a peixeira da cintura atracando com o rival, desferindo certeira facada pouco acima do peito esquerdo. Imaginando o inimigo morto, Cabelo-de-fogo chamou seus homens rumando pro São Marcos, cantando vitória, a morte de Bastintim. Do outro lado do veredão, Malalá esperou chegar a calmaria, puxando seu cavalo cansado, água até a cintura, a blusa ensopada deixando entrever o contorno dos seios duros, empinados. Sua decisão era reunir as últimas cabeças de gado, sumir no cerrado. Foi quando viu Bastintim ferido caído, sangrando. O coração acelerou. Os olhos reviraram quando Bastintim sorriu... como fosse pela última vez.
Por Romulo Nétto - Jornalista e Escritor
MALALÁ
Malalá
A primeira morte aconteceu mal completara onze anos. Todo final de semana, era a mesma agonia. Piorra enchia a cara no boteco do mestre Zanzá, voltava pra casa faminto, reclamando da vida, exigindo comida no prato. Como pôr comida em casa se não trabalhava, o pouco ganho da mulher era consumido em suas intermináveis bebedeiras? Naquela morna manhã, Piorra ultrapassou todos os limites. Chegou ao casebre quebrando a porta, arremessando tamboretes pela janela, derrubando pratos, velhas panelas no chão. Postou-se como senhor patrão, o verdadeiro macho do território. Branca, que de branca não tinha nada estava deitada no catre do casal, vez por outra sentia falsas contrações contorcendo-se em dores, jurava que não perderia o filho. Piorra chamou pela mulher, ouviu apenas um gemido, furioso partiu pro quartinho começando a pancadaria. Branca gritava pedindo perdão, socorro. A chamava de vagabunda, preguiçosa; quanto mais implorava, mais violento Piorra se transformava. Na primeira hora, Malalá assistiu assustada a irmã ser espancada; ouviu ossos estralando, o sangue jorrando como fonte. De tanto medo, não conseguia chorar. Aos poucos, a tortura da irmã foi enchendo sua alma de coragem; quando viu a afiada faca de limpar peixe por sobre a velha mesa da cozinha, nem não pensou duas vezes. Correu possessa apanhando a arma. De costas, o companheiro da irmã não pressentiu sua aproximação. Com fúria, cravou a peixeira na altura do rim esquerdo, torceu, puxou, enfiou novamente com determinação no lado direito, o danado só teve tempo pra exclamar: — sua putinha safada! Tombando em seguida sobre o corpo todo machucado da companheira. Por várias vezes, Malalá chamou por Branca. Sem resposta, achou melhor cair no mundo. Encontrada, seria acusada das duas mortes. Nas leis dos homens, o pobre sempre é culpado em primeiro lugar até prova em contrário.
Malalá nunca escondera seu gosto pelas armas de fogo. Aprendera ainda pirralha a atirar com a espingarda do pai, depois com um velho revólver. Dali pra frente, sabia qual caminho a seguir: a jagunçagem. Após a fuga no primeiro retiro por onde passou, roubou um cavalo, uma winchester, munição. Começou a correr seu novo mundo. Quinze dias de tropel firme parou pra descansar na Vereda da Traição. Foi onde decidiu cortar o cabelo bem rente, deu um jeito de esconder os peitinhos que despontavam. Precisava mostrar que era um rapagote, somente assim conseguiria guarida em algum bando. Se se apresentasse como mulher, seria pasto fácil praqueles abutres que, desnorteados, gastavam meses sem tocar numa mulher. A viadagem entre jagunços era punida com a morte.
Vagou por quase dois anos sobrevivendo de araçás, mangabas, teiús, peixes que pescava com facilidade nas imensas veredas. Procurou guardar munição. Não atirava só por economia, mas pra manter segredo sobre sua localização. Desfrutava da sombra de um jatobazeiro, quando ouviu o tropel. Pôs-se de prontidão, arma em punho esperando pelo pior. A primeira cara que viu foi de Desdum, misto de beato, curandeiro e macumbeiro. Velho conhecido de seus pais. Baixou a arma afirmando ser de paz, precisando do aconchego de um bando. Desconfiado como no em sempre, Desdum provocou sua ira dizendo que o velho Tão com a comadre Dasdor não tinham filho homem, apenas mulher. Rebelde, agressiva Malalá perguntou se ele queria vê-lo nu diante de todos pra provar que era menino-homem. Desdum amoleceu. Malalá, a partir daí, renasceu como homem, pronta pra todas as atrocidades que o cerradão seco estava predestinado a presenciar: mortes, mais mortes sem julgamento.
Desdum decidiu acampar com o bando na Vereda da Sabedoria, bem próximo do Santa Isabel. O esconderijo era bom, farto de caça, pesca. Ali, passaria até meses com seus homens esperando o chamado de algum coronel. Serviço na época da política não faltava nunca. Os homens comiam, pescavam, dormiam, praticavam tiro ao alvo, a vida desse modo por muito tempo tornaria monótona, provocando irritação, descalabro.
Meses antes das eleições de cinqüenta, Desdum foi chamado pra executar um serviço na beira do Urucuia. Os principais coronéis desaprovavam o indicado do governador Mello Franco pra prefeito de Buritis, recém-emancipado distrito. Desdum achou oportuno colocar à prova não só a pontaria como a lealdade de Malalá, a quem chamava de Olhos Azuis. Chegaria sozinha na cidade, hospedaria na Pensão de Nhábenta, vistoriaria as principais ruas, assistiria aos comícios procurando se familiarizar com a rotina do candidato a prefeito e a morto. Apenas três dias bastaram pra Olhos Azuis saber como seria fácil executar sua tarefa.
No dia doze de outubro, seu décimo terceiro aniversário, foi à missa, rezou, cantou, comungou. Saiu antes de todos. Mal Vitoriano apontou pela porta da igreja, sapecou três tiros no peito, nem esperou a queda já esporeava o cavalo com o sabor do dever cumprido, a sina de jagunça iniciada.
A morte de Vitoriano Neiva correu o sertão das Gerais. Diziam uns que foram cinco jagunços, outros pormenorizavam dez ou doze, descrevendo até cangaceiros das Bahia, das Alagoas.
Olhos Azuis foi recebida em festa no acampamento de Desdum; a cria estava precocemente preparada pra seguir sua trilha.
Os anos passaram, ela perdeu a conta de seus mortos. Com vinte anos nas costas, por certo chegariam a quarenta, todos realizados em perfeito prazer, alegria.
No fundo de sua alma sabia que nascera pra ser jagunço. Mas o corpo de mulher escondia desejos que, vez por outra, afloravam violentamente. Foi assim quando viu Bastintim pela primeira vez. Estava com o bando roubando alguns bois na fazenda Buriti Perdido, logo depois do São Marcos. Os touros bravios relutavam subir o barranco do rio pra adentrar o cerrado de Paracatu, de onde não sairiam jamais.
Bastintim estava deitado com as mãos no peito, sangrando ofegante. Ferido a faca. Se fora bala, de há muito teria morrido. Malalá aproximou calma. Os olhos disseram tudo.
Por Romulo Nétto - Escritor e Jornalista
Poemas de Os Deserdados da Sorte
39.
Para o vivente que tem/
de espiar nas lonjuras/
a proximidade da comida/
a cegueira de um olho/
é pior que a cegueira das letras.
40.
Um olho só lhe basta/
para enxergar a miséria do mundo.
28.
Se lhe ardem os olhos/
pela fumaça tanta/
se lhe dói o estômago/
pela fome tanta/
se lhe incham os beiços/
pela sede tanta/
ainda haverá esperança/
Filisberto? Quanta?!
29.
Nunca um salário teve/
nunca um natal festejou/
trapos - de roupas lhe servem -:/
de seu só o nome Filisberto/
recebeu honrou.
Por Romulo Netto - Escritor e jornalista
sexta-feira, 7 de junho de 2013
PLUG
Ia indo, solitário, lendo estrelas, revendo sertões, decifrando esquecidas, mal-dormidas luas sem que vivalma, por pequenina fosse, ousasse acompanhá-lo. Ele um pobre favorecidamente reconhecido deserdado das sortes, que, no bom andar de seu esquartejado destino, punha a cara bexiguenta à prova dos murros e urros da molecada. Em sua ruamundo tudo girava pra trás. Ele buscava sempre passear na contramão da vida, enquanto nos pequizeiros, as pombas do bando reinavam. Se dizia sozinho. Mas de suzim mesmo só tinha um buriti perdido no meio da selvagem vereda azul que sorrateira sobreviveu entre morrotes agarrados ao descampado, onde o Urucuia resolveu beber as águas de fracotes riachos.
Sentado sobre rachados calcanhares, escarafunchou unhas negras corroídas pelos pedregulhos, assuou duas vezes seguidas as narinas cabeludas, olhou vago pro céu assuntando as horas, sentindo pequena comichão na mão esquerda, ou foi na direita? O dedo indicador se torceu em contorcida dor de apertar gatilhos. Em sua paz mórbida, experimentou se renascer novamente no sangue derramado de próximos defuntos. Fosse pelo contrário. O sertão era sua roupa preferida. Nem o diabo travestido da mais faceira morena tomava sua atenção. Gastava horas magicando caminhos outras vezes regressos. O futuro não sabia como lidar com seus antecipados pensamentos. Era tão distraidamente perdido como se tudo não passasse de desafios pro tempo. De quando em quando se engabirobava esperando maduras cascavéis com intuito único de vê-las sofrendo, esperando despencar amarelado fruto que teimava resistência não cedendo nunca, antevendo de véspera que o chão daquele cerrado sempre foi sinônimo de morte.
Logo ele viril patrão de seu desanonimado destino. Por certo jamais se cedera em angústias, mesmo quando a fome, a sede, o cercavam nas mais plenas voracidades.
Acreditava que nascera pra se perder em derradeiras glórias encontradas nas bandas esquerdas do Urucuia ou, sabe-se lá, mesmo até nas próximas sofridas águas do desavisado Paracatu.
Ele que nunca foi seu dono, agora, depois de tanto sol resvalando pelo velho chapéu furado se via possuído por senhor desconhecido. Viramundo. Vira-lata faminto, sanguinário. Porco sedento, desenfreado. Herói de machucados instantes. Um só que se busca no buscar dos outros, que se olha penetrando no terceiro olho do que nunca foi ou jamais será.
Plug marcou sua vida sobre tantos destinos, pouquíssimos sóis, luas derradeiras. Descansou sob a sombra de esquecidos jatobazeiros, bebeu da água das pequenas cacimbas anfitriãs, jantou no descampado dos sertões milagreiros as carnes ensopadas de tatus encardidos pelos tempos imemoriais, sobressomados, sobreamassados por mandiocas amarelas de prenhez precoce. No sonhar de seu pesadelo príncipe, desejou mumificar todos os gostos como se o estômago satisfeito conseguisse reter o milagre da alimentação per omnia secula seculorum.
Mal completara vinte e cinco anos, quando decidiu arranchar a vida perto de secular cumbaruzeiro que o tempo pariu esquecendo no pós-depois das terras do coronel Teodoro Fuquefuque. Fincou ali dúvidas, saudades, dores, lembranças, sonhos e ilusões. Mais que isso. Jurou de pés juntos sair dali só morto. Suzim, suzim mesmo, não arredaria um piscar de olhos. Bom pois! Assim fosse, se sucedesse. No quê! Ele, seus santos, entrecortados por imensa curriola de santas, desafiariam sertões, cerrados, no justo distribuir de sentenças sem defesas ou desavenças. Se somaram alguns penosos anos de solidão, até que Nhá Parteira perdida, ou pode té ser deixada de propósito, pôde descortiná-lo peladão, peladim nadando num vai-vem profundo nas foscas águas do Urucuia. Meio que desavisada, desavergonhada, gritou pelo moço implorando adjutório. Era de justa necessidade chegar o quanto antes nas terras de seo Izé Cabedelo onde assistiria Sinhá Mocinha em seu parto de difícil primeira parição. Um olho no tresoitão, outro meio que avermelhado na peixeira afiada, moveu o corpo vagaroso, mas acobertado de decisão. Ouviu os rogos da parteira, torceu a boca, coçou o subaco com a mão esquerda, deixando entender que a de bom uso estava livre. Peladão, peladim. Saiu das mornas águas como veio ao mundo, deixando seus balangandãs sacudirem ao ar em frenética música ancestral. Se pôs em guarda já sabendo que de graça ninguém chegava àqueles pagos.
Antes, bem antes, de mirar os olhos de Nhá Parteira, pegou pequeno pedaço de fumo goiano do picuá, preciso, mas com vagar, cortou esparramando em seguida sobre a fina palha de milho. Olhou pro longínquo horizonte sobrefechando seu olho ruim, ao mesmo tempo em que enrolava o palheiro. Desatencioso, procurou seu binga no bolso da calça mesmo sentindo o peso sobre o coração. Acendeu o pito. Somente após sentir na cara a fumaça quente, o cheiro suave do fumo, se deixou conduzir pela trepidante conversa da alquebrada parteira.
Ali lançara sua sina. Se conduziu ou foi conduzido pela contagiante conversa da velha-moça. Gastaram horas de perdidos sóis, enfraquecidas luas, até chegarem aos domínios de seo Izé Cabedelo. Três ou quatro homens descansados, de pronto, se ergueram quando ouviram os lamentos de Nhá Parteira. Pra eles naquela hora ela nem existia. Mediram de rabo a cabo o acompanhante. Relutantes, deixaram que o estranho seguisse em frente rumo à casa-grande.
Deus e o diabo seriam testemunhas do que viria daí em diante.
ROMULO NÉTTO - JORNALISTA
PLUG - publicado originalmente no livro Tarenço, o Capanga de Lata - Carlini & Caniato Editorial
BEATO TERGISALO
Há muito tempo decidiu fazer jejum – de silêncio. Cinco anos ou mais sem proferir uma só palavra. Tudo começou quando deslizou sua canoa da primeira margem do Escuro Grande, sentindo que não adiantava mais sofrer. Não tinha nenhuma dor disponível no estoque para desativar o coração abalado pela perda da mulher e do filho assassinados em morna manhã pelo beato Tergisalo.
Quem encontrou os corpos maltratados foi Nhacema. De susto, saiu em desabalada carreira gemendo, gritando como tivesse visto o tal, o dianho. A vila inteira acudiu ao escarcéu de louca; ninguém ousou acreditar no que os olhos viram. O pobrezinho todo estropiado, rasgado da goela até o umbigo num rasgão só. Era sangueira esparramada casa adentro, casa afora. No final da tarde, com a enxada sobre os ombros, ele chegou da rocinha. Admirou de ver aquele povaréu ao redor de seu casebre. Só pôde entender quando deparou com a mulher e filho estirados no jirau, de mãos postas, olhos fechados.
Mal esperou o enterro pra se perder no mundo; os olhos juravam vingança, a boca nada dizia. Destrinchou Arinos, Buritis, subiu desceu as serras das Almas do Boqueirão, vasculhou pela Canastra, remou rio Verde abaixo, bandeando de João Pinheiro para o rio da Prata, caindo no córrego Rico, volteando pro Escuro Grande, onde sentou “praça” de barqueiro solitário em sua dor constante. Pescava o dia inteiro: pacus, dourados, piracanjubas; limpava, punha pra secar; esta sua moeda. Vendia ou trocava por sal, farinha, arroz de luxo passageiro, um naco de fumo de corda, café.
Ninguém bulia com ele ou lhe passava a perna. Combinavam preço, tamanho, prazo. A encomenda certa no tempo exato. Tudo dentro de seus conformes: sua lei seca de palavras e gestos.
Foi remando a vida como remava sua canoa pelas águas tranqüilas do Escuro Grande.
O coração quieto sabia que a vingança tinha dia, hora marcados, questão de aguardamentos. Soube de conversas alheias que o beato Tergisalo passara pela Canastra, Retiro, Bocaina, mas pretendia se estabelecer com o bando de fanáticos nas Veredas, fazendona antiga de desdeixados donos mortos em morte duvidosa quinem o doutor delegado de Paracatu conseguiu descobrir autores ou mandantes.
O coração sobressaltou desordenado causando sensações, inquietudes estranhas tidas-havidas como de tempos finais esquecidas. Sabe-se hoje estavam apenas adormecidas.
Noite dia, dia noite escondidinho na caverna onde secava defumava seus peixes, ouvia o embrenhar dos jagunços do beato Tergisalo procurando seus rastros.
Já se fizera de manhãzinha quando ouviu um chamado do outro lado do Escuro Grande. Não era barqueiro atravessador de gente, mas sabia como penava qualquer cristão que desejasse transpor o rio caudaloso naquele extremo. Não divisou acompanhantes. Pegou o remo; sua tralha de pescaria não saía nunca da canoa, nem a papo-amarelo escondida sob a surrada capa Ideal. Vinte minutos depois, estava ancorando na outra margem.
— Dia!
—
Com o dedo apontado em riste mostrou onde o chegante se acomodasse. O outro falante declinou o nome: beato Tergisalo. O sangue se transformou em vulcão dentro do corpo. Todo o passado veio à tona. O beato indagou se as terras de Nhaporá ficavam praquelas bandas. Meneou a cabeça assentindo. Pra ouvir mais, arriscou oferecer um gole de cachaça. Tergisalo bebeu, aprovou. Soltou a língua. Destravado o falatório, Bitão escutou horrores. Como a mulher fora assassinada; os requintes de crueldade quando o beato dançando em círculos se empapuçava comendo o coração de seu filho. A margem pareceu-lhe um século para chegar. Sisudo, jogou as tralhas no chão e pegou a capa segurando sua arma encoberta. Num piscar de olhos, puxou a parabélum. Varou o joelho de Tergisalo que caiu uivando de raiva.
Depois de cinco anos, recobrou a fala:
— Este foi procê nunca mais andá!
Atirou nas palmas das mãos; foi desfiando seu rosário de dores, quase a perder o fôlego, contou que a mulher e a criança mortas eram sua família.
Tergisalo suspirou. Um suspiro profundo quando a última bala penetrou entre os olhos.
ROMULO NETTO - JORNALISTA E ESCRITOR
O conto Beato Tergisalo foi originalmente publicado no livro Contos dos Gerais. Carlini & Caniato Editorial
MOÇA NA BICICLETA
Costumeiramente, nós a víamos pedalando sua bicicleta Leão de pneus finos pelas ruas do Santana, Alto do Córrego, caminhos estreitos da Chapadinha.
Na Direita, ela parava sempre pra trocar um fiapo de prosa com Julinha, Rosilene, Célia, Nira, dona Enedina e Preta.
Era muito singela. Lavínia, embora fosse da família mais rica de Nasquebradas, carregava no sangue a simplicidade.
Naquela manhã ensolarada, ela desceu da bicicleta e ficou especulando como tínhamos nos saído nas provas parciais. Segredou-me que estivera péssima em Matemática. Se esforçava pra compreender as explicações do professor Gesner, mas de nada adiantava. No segundo semestre, tinha que fazer média boa pra não ser reprovada, senão o destino seria o colégio São Domingos, em Araxá. Alguns minutos depois, Lavínia foi embora deixando-nos com o coração em frangalhos, acelerado. Também pudera. Estava vestida com um short minúsculo, deixando entrever que dispensava calcinha. Os bicos dos seios duríssimos apontavam em nossa direção como dois punhais. Corremos a turma toda pra casa grande, velha construção abandonada ao lado da Santa Casa de Misericórdia, e nos perdemos numa punheta que pareceu durar horas. Cada um de nós possuiu Lavínia inúmeras vezes em nossos sonhos. Loucuras de inverno prenúncio de primavera.
Todos tínhamos vontade de convidá-la pra passear mas na hora “h” perdíamos o fôlego com medo de um não. Nunca saberemos se recusaria um convite.
A sexta-feira amanheceu ensolarada, bonita. A Lyra Euterpe Nasquebradense, desde cedo, atacou furiosa com seus dobrados, marchas anunciando que o dia de São Cristóvão seria alegre, festivo com desfile de caminhões, charretes r carroças como acontecia todos os anos.
Depois do café com bolo de arroz em profusão como tínhamos combinado, iríamos à rua Goiás assistir ao desfile; lá pelas nove, rumaríamos pro São Sebastião, onde pretendíamos passar o restante da manhã até a tarde.
Vovô junto com Cadinho ficou encarregado de preparar as varas de pescar, iscas, faca, sal, farinha, matula e uma lata pra fritarmos os pescados. Quem sabe alguns piaus, na pior das hipóteses: no açudão havia uma fartura de piabas graúdas.
Do Santana até o São Sebastião, caminhada pra mais de hora. Sempre a fazíamos parando à cata de alguma fruta, às vezes de um tatu, ou de uma preá que, com sorte, abatíamos: início de nossa farra juvenil. Aquele São Cristóvão não havera de ser diferente.
No alto do céu azul despossuído de nuvens, o sol prometia brindar o dia com muito calor. Mais que isso, jamais sonharíamos.
Juntos, buscamos nosso recanto: João Queijo, Vovô, Cadinho, Edvar, Anum-Branco, Izebeiju, Pexico, Robertim, e eu. As meninas pediram, insistiram, choraram, rogaram pragas tentando nos convencer a deixá-las nos acompanhar. Nem que não. A estrada era longa, as meninas só atrasariam nossa jornada.
O sol estava a pino. Tiramos as camisas; as costas ardiam quando atingimos a porção norte do açudão. Era o ponto mais farto de piaus, piabas, além de guardar as pedras que transformávamos em fogão pra fritar ou assar peixes, nambus, tatus.
Da estrada, viemos de mãos abanando. Restava a pescaria ou a descoberta de frutas; fome, porém, não teríamos, pois trazíamos na matula farinha, rapadura, alguns pães.
Meia hora de pescaria. O jacá já estava quase cheio, pelo menos uns dez piaus que se debatiam movimentando de um lado pro outro aquele cesto de bambu deixado dentro d’água pra conservar vivo o pescado.
De repente, ouvimos um grito. Quem achou primeiro a bicicleta, logo depois o corpo, foi João Queijo que preferia buscar frutas ao invés de dar banho em minhoca, como ele definia nossas pescarias sempre.
Corremos todos. Lá estava ela nua. Os seios duros com sinais de mordidas selvagens; o sexo machucado, as pernas grossas torneadas longas manchadas de sangue. Os olhos expressando terror, incredulidade. A garganta com corte profundo. Nossa Lavínia morta, estuprada. Raspava os cabelos da parte de baixo em forma de estreito triângulo eqüilátero de cabeça pra baixo, pouca espessura, em olhar de relance acredito não mais que meio centímetro de altura. Apesar de machucada e morta, nunca vi Lavínia tão perdidamente linda. A lembrança de sua xandanga coberta por aqueles tênues fios de cabelo em forma triangular, até hoje decorridos mais de quarenta anos, não me sai da cabeça.
Nem sei bem como reagimos. Decidimos que Queijo e eu iríamos correndo pra Delegacia. Mais de uma hora depois, chegamos com o coração na boca, o terror estampado na cara. Só conseguimos dizer:
— Seo Adriles! Lavínia está morta na beira do açudão.
Ele gritou pelo Cabo colocou-nos na traseira do Jipe e rumou pro local indicado, seguindo a estrada que conhecia de cor, salteado.
Dez minutos depois, já estava examinando o corpo de Lavínia. Ao lado de um pé de caju do mato, encontrou pequena faca de cabo de chifre de boi. Apenas sorriu, pensando alto que o crime estava solucionado.
Mandou-nos pra casa. O Jipe levaria o corpo de Lavínia pro necrotério do Hospital do Vale. Foi a última vez que vimos Lavínia. Faltou-nos coragem para olhá-la dentro do caixão...
Romulo Nétto - jornalista e escritor
O conto Moça na Bicicleta foi originalmente publicado no livro Contos dos Gerais, Carlini & Caniato Editorial.
É PROIBIDO LER - por Romulo Nétto
A notícia varreu os quatro cantos do País. O povo estava sendo chamado pra participar da grande marcha cívica em comemoração ao dia da Independência. Ninguém de sã consciência se atreveria a faltar a tão importante evento.
As mães devotadas aos filhos começaram a costurar roupas de gala, queriam, todas elas, que seus filhos fossem eleitos os mais elegantes e bem vestidos. Até as pobrezinhas das favelas se esmeraram em aproveitar restos de panos e costurar vestidos, calças e camisas pra seus rebentos.
Carros com sistema de alto-falantes foram esparramados por todos os bairros das cidades conclamando o povaréu a comparecer ao dia mais importante da República.
O que o povo não sabia é que nos quartéis havia intensa movimentação conspiratória pra derrubar o governo. A crença era de que o presidente dera forte guinada pra esquerda e em breve adotaria o regime comunista. Os militares não podiam aceitar pacificamente a mudança de regime. Urgia uma tomada de posição e nada melhor do que conclamar o povo pra participar com toda sua energia.
As ruas foram embandeiroladas de verde e amarelo, símbolo maior de amor à pátria. Das janelas das casas e dos prédios públicos despencavam enormes bandeiras do País. Os ânimos ferviam nas ruas. Nas câmaras de vereadores, assembleias legislativas e no Congresso Nacional oradores exaltados se alinhavam contra e a favor da marcha pela liberdade. Não encontravam o menor indício de mudança na condução do regime político, ninguém suportaria prisão perpétua, julgamentos sumários, deportação pra ilhas distantes, trabalhos forçados, tortura. Não! Essa ideia era inadmissível. Algo andava muito errado!
Os coordenadores do movimento acertaram em cheio. O povão queria mesmo era pão e circo. A seleção brasileira de futebol foi convocada às pressas pra efetuar diversos amistosos, com inexpressivas agremiações do Caribe e da África. Estavam procurando tapar o sol com a peneira.
Seo Miguelim, vendeiro de longa data, assíduo leitor de jornais, ouvinte contumaz da Rádio de Moscou, desconfiou daquela movimentação. Alisou seus bigodes e pensou em voz alta: Marx não será vencido! Acredito que era o único verdadeiro comunista no Estado, o resto era de enfeite, corria de uma ideologia pra outra de acordo com seus interesses. Ele não! Nunca abandonou a leitura das obras de Marx, embora não aprovasse o regime imposto por Joseph Stalin, depois seguido por Nikita Kruschev. Aqueles ditadores não conheciam os limites entre o dever do Estado e os direitos dos cidadãos. Eram criminosos comuns, investidos nos mais altos cargos do Comitê e não representavam a essência da doutrina marxista.
A bodega de seo Miguelim não ficou ornada com a bandeira do Brasil, nem com bandeirolas verdes e amarelas. Tampouco colocou uma foice e martelo simbolizando sua crença. Fiel a seus princípios, mas amante inveterado das coisas brasileiras, não sairia defendendo, de armas nas mãos, comunismo ou democracia, fosse o que fosse esperava o melhor pro povo.
Muitos tinham o mesmo pensamento que seo Miguelim, porém despossuíam a coragem explícita do velho bodegueiro.
O que mais o assustou foi a movimentação na rodovia que cortava a cidade. Os caminhões com soldados fortemente armados, com alguns mísseis e tanques cruzavam a estrada rumando pra Capital Federal. Pra ele não se tratava meramente de simples comemoração do dia da pátria, mas da derrubada do governo legalmente constituído.
Os dias passaram e os mais pequeninos povoados, cidadezinhas que mal se encontravam nos mapas, até as maiores capitais estavam engalanadas. O povo acorreu às praças em clima de festa e alegria incontidas. Nos edifícios milhares de pessoas começaram a jogar papel picado que caía em cascata simbolizando a adesão ao chamamento pra comemorar tão significativa data.
Enquanto o povão aplaudia o desfile cívico-militar, na Capital Federal, as tropas das três forças cercaram o palácio presidencial forçando a renúncia incontinente do mais alto mandatário do País.
Nas ruas das cidades com maior população os estudantes nem tinham acabado de exibir seus uniformes de gala quando a notícia extraordinária do principal jornal da televisão explodiu: — os militares acabaram de depor o presidente da República.
Foi um período duro de transição. Milhares de jovens, mulheres, funcionários públicos, artistas, escritores, políticos e gente simples do povo acabaram atrás das grades ou em campos de futebol transformados em prisões. Estava implantado o regime de exceção.
Os anos foram passados e a população acabou por conviver com a ditadura, mesmo sem entender a razão de tão drástica mudança. Alguns poucos formaram movimentos clandestinos de combate ao regime ditatorial e eram caçados ferozmente pelo que denominaram forças da repressão.
Seo Miguelim ficou transtornado quando viu o pelotão policial se aproximar da bodega. Atrás vinha a multidão constituída pelos principais dependuradores de contas do seu pequeno estabelecimento comercial. Com o dedo em riste o apontavam e gritavam: — prendam ele! Ele é comunista! Vive falando de um tal de Karl Marx! – O velho bodegueiro se assustou com a ferocidade da turba, que semanas antes não deixava o balcão, passando horas ouvindo contar histórias acontecidas na época da Segunda Grande Guerra Mundial. Não representava perigo algum, senão pra seus devedores, pois que suas contas um dia seriam cobradas. Quem pensar que o calejado comerciante era bobo se enganou completamente. Guardou em lugar bem protegido todas as cadernetas, já antevendo que mais cedo ou mais tarde seria levado pra prisão. Quando saísse cobraria, de todos, com juros e correção monetária a divida, não pela dívida em si, mas pela falsidade!
Os tempos passaram e os militares reconheceram que tinham cumprido, mais uma vez, seu papel na História. Decidiram convocar eleições pra vereadores, prefeitos, deputados estaduais, governadores, senadores e presidente.
A maior parte da população achou que a notícia era brincadeira de mal gosto de repórter sem ter o que fazer, mas não! A Junta Militar que governava o País fez pronunciamento em rede nacional de teleisão comunicando que a missão estava concluída e que a democracia fora plenamente restabelecida.
O assanhamento do povo foi geral. Em poucos meses o que mais se via pelas ruas eram santinhos espalhados pelo chão, enormes cartazes de candidatos, faixas enaltecendo fulano ou sicrano como o melhor candidato. Uma balbúrdia sem fim.
Não piorassem as coisas porque os militares estavam de olho no procedimento dos civis e se necessário fosse interviriam novamente.
Pra seo Miguelim, civil no poder significava corrupção e era o que mais temia. Dinheiro público destinado à Saúde, à Segurança Pública, à Educação e às tão necessárias obras de infraestrutura seriam desviadas, como sempre foram, para as contas de políticos nos maravilhosos paraísos fiscais e não havia um só promotor ou juiz federal capaz de enfrentar a máfia infiltrada nos governos. Não lamentou o tempo passado nos porões da ditadura. Lamentou isto sim, a volta ao poder dos velhos caciques que agora vinham com apetite redobrado.
As acirradas campanhas eleitorais pra todos os níveis pipocavam exaltando todos os ânimos. Inventaram partidos que possuíam apenas dois ou três filiados. A perniciosa proliferação de siglas fora instituída pra mais tarde cobrar dos eleitos o preço do apoio. Em breve seria implantada a máxima de São Francisco: é dando que se recebe. E como os urubus da política receberiam!
O País acordou em festa no três de novembro, dia da eleição. Cabos eleitorais emporcalharam as ruas e ruelas de todas as cidades, esparramando santinhos de seus candidatos, a grande maioria constituída por analfabetos, fichados na polícia por crime de corrupção. Mas o processo eleitoral era um vale-tudo incomensurável.
Seis candidatos concorreram à presidência. Os dois mais bem votados disputariam o segundo turno. Com quarenta e quatro por centos dos votos, Asdrúbal Camaleão foi o candidato da oposição, antigo aliado do regime, ele pensava que era benquisto pelos militares. Em segundo lugar, com vinte e oito por cento ficou Marginaldo Sinfrônio.
A bem da verdade o segundo colocado não era páreo pra Asdrúbal Camaleão, cujo nome já dava pra ter vaga ideia de sua esperteza.
O povão estava atarantado com as promessas de Asdrúbal Cameleão. No primeiro ano de seu governo não existiria mais nenhum desempregado no País, todas as estradas seriam asfaltadas, construiria milhares de escolas e hospitais, importaria as mais modernas armas pras polícias, implantaria moderno sistema único de saúde pra população carente, coisa de fazer inveja aos países do primeiro mundo.
Logo após sua posse não foi bem isto o que se viu publicado no Diário Oficial. Os ministros de Estado, escolhidos a dedos, eram notórios componentes das máfias que durantes anos desviaram milhões de dólares dos cofres públicos, mesmo inclusive no período da ditadura. Encontrar um indicado honesto em qualquer dos escalões do governo era tarefa mais difícil que achar uma agulha no palheiro.
A outra grande surpresa veio estampada no Diário Oficial do segundo dia de governo. Um decreto determinava o fechamento de todas as bibliotecas públicas, sob a alegação de que todas seriam reformadas, enquanto o edital da maior licitação pra aquisição de novas obras estava sendo preparado.
O jornal oficial não alcançava a grande massa, mas a televisão sim. Estarrecidos entrevistadores se postaram diante do palácio presidencial à cata de maiores esclarecimentos. Não havia engano. As bibliotecas estavam terminantemente proibidas de funcionar até que o processo licitatório fosse concluído e as obras entregues. Não havia a menor condição de recorrer, também não havia pra quem.
Absurdos daqui, absurdos dali, e Asdrúbal Camaleão foi levando seu governo de desmandos, sem que acontecesse o menor esboço de resistência.
O Congresso Nacional não estava engessado. Era simplesmente corrupto, fazia o que o presidente determinava quando as emendas eram liberadas. Sem emendas, sem dinheiro no bolso.
A única reação nascia e crescia no seio das universidades federais. Indignados alunos e professores começaram a movimentar criando subterrâneo movimento de resistência.
Alunos e professores dos ensinos fundamental e médio se aglomeraram ao redor da primeira grande manifestação contrária às atitudes de Asdrúbal Camaleão.
Chamava constantemente o ministro da Justiça procurando encontrar brechas na lei pra enquadrar alunos e professores, sem sucesso, Era preciso editar um decreto, pois temia demora na aprovação de medida provisória. Tinha o Congresso nas mãos, mas não sabia até quando.
E os desmandos continuaram assustando a população. Obras começavam e paravam mal concluídas as fundações. Nos hospitais públicos a falta de medicamentos e materiais pras cirurgias era uma constante. As estradas não suportavam o transporte das sucessivas safras de grãos, que batiam todos os recordes. Nas escolas, até mesmo nas universidades os alunos eram obrigados a levar suas cadeiras, pois os equipamentos públicos estavam em pandarecos.
O crime organizado dirigia até os presídios de segurança máxima. Nas favelas os cadáveres de integrantes de facções rivais apodreciam. Os rabecões caindo aos pedaços não eram suficientes pra transportá-los pro Instituto Médico Legal e nem havia profissionais suficientes pra realização de tantas autópsias.
Nos aeroportos o movimento era intenso, milhares de pessoas decidiram sair do País temendo uma guerra civil. Enquanto isto Asdrúbal Camaleão reinava impunemente.
Inconformado com a queda de popularidade determinou o fechamento de todos os jornais e editoras, exceção feita ao Diário Oficial da União.
Em sua extremada loucura mandou publicar no dia da Independência o lacônico decreto:
Decreto número 2001.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere a Constituição da República Federativa do Brasil, DECRETA:
Artigo lº – É proibido ler.
Artigo 2º - Este Decreto entra em vigor na data de sua Publicação.
Brasília, 7 de setembro de 2020, 208º da Independência, 131º da República.
A indignação com o ato presidencial foi generalizada. Estivesse ladeado por assessores capacitados não teria cometido a mais tremenda de todas as suas burrices governamentais.
As crianças do ensino fundamental foram as primeiras a repudiar o decreto. Incitaram os pais a rebelar contra a extremada medida. A revolta alastrou-se país afora.
Nos dias seguintes a movimentação tomou corpo e milhares de ônibus rumaram pra Capital Federal.
Aqueles pequeninos se sentiram ultrajados com a proibição da leitura nas escolas, nas pracinhas, em casa. Certo é que o governo não tinha como fiscalizar, mas só a truculência do aparato policial já era suficiente para inibir o prazer de apanhar um livro na estante e começar a lê-lo.
Os mais importantes jornais do mundo estamparam nas primeiras páginas enormes manchetes e extensas reportagens expondo o terror implantado pelo primeiro presidente civil pós ditadura militar.
A Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes ficaram pequenas pra abrigar tantas crianças que abriram suas faixas exigindo a renúncia do presidente da República. Elas não queriam a revogação do decreto, pois ardiloso como demonstrara ser, logo arranjaria outro meio de tentar amordaçar a população.
Acamparam. Promoveram estardalhaço de tal magnitude que ninguém conseguia trabalhar, fosse nos ministérios, fosse no Congresso, no palácio presidencial ou no Supremo Tribunal Federal.
O embate prosseguiu com o presidente tentando resistir ao pedido de renúncia. Os congressistas começaram a debandar, esvaziando a base aliada. Asdrúbal Camaleão se viu perdidamente só.
No palácio não restou um só funcionário que fosse, mesmo o menos graduado. Apenas a secretária, que de quando em onde, servia seu cafezinho e as refeições que ela mesma preparava.
E mais ônibus chegaram transformando as imediações da torre de televisão e o Palácio Buriti em acampamento.
A criançada amadureceria ali, sem temer qualquer represália. Foram semanas de comoção até que, na única atitude sensata, Asdrúbal Camaleão optou por renunciar à presidência da República.
Agora as crianças podiam voltar novamente a ler.
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