sexta-feira, 7 de junho de 2013

É PROIBIDO LER - por Romulo Nétto

A notícia varreu os quatro cantos do País. O povo estava sendo chamado pra participar da grande marcha cívica em comemoração ao dia da Independência. Ninguém de sã consciência se atreveria a faltar a tão importante evento. As mães devotadas aos filhos começaram a costurar roupas de gala, queriam, todas elas, que seus filhos fossem eleitos os mais elegantes e bem vestidos. Até as pobrezinhas das favelas se esmeraram em aproveitar restos de panos e costurar vestidos, calças e camisas pra seus rebentos. Carros com sistema de alto-falantes foram esparramados por todos os bairros das cidades conclamando o povaréu a comparecer ao dia mais importante da República. O que o povo não sabia é que nos quartéis havia intensa movimentação conspiratória pra derrubar o governo. A crença era de que o presidente dera forte guinada pra esquerda e em breve adotaria o regime comunista. Os militares não podiam aceitar pacificamente a mudança de regime. Urgia uma tomada de posição e nada melhor do que conclamar o povo pra participar com toda sua energia. As ruas foram embandeiroladas de verde e amarelo, símbolo maior de amor à pátria. Das janelas das casas e dos prédios públicos despencavam enormes bandeiras do País. Os ânimos ferviam nas ruas. Nas câmaras de vereadores, assembleias legislativas e no Congresso Nacional oradores exaltados se alinhavam contra e a favor da marcha pela liberdade. Não encontravam o menor indício de mudança na condução do regime político, ninguém suportaria prisão perpétua, julgamentos sumários, deportação pra ilhas distantes, trabalhos forçados, tortura. Não! Essa ideia era inadmissível. Algo andava muito errado! Os coordenadores do movimento acertaram em cheio. O povão queria mesmo era pão e circo. A seleção brasileira de futebol foi convocada às pressas pra efetuar diversos amistosos, com inexpressivas agremiações do Caribe e da África. Estavam procurando tapar o sol com a peneira. Seo Miguelim, vendeiro de longa data, assíduo leitor de jornais, ouvinte contumaz da Rádio de Moscou, desconfiou daquela movimentação. Alisou seus bigodes e pensou em voz alta: Marx não será vencido! Acredito que era o único verdadeiro comunista no Estado, o resto era de enfeite, corria de uma ideologia pra outra de acordo com seus interesses. Ele não! Nunca abandonou a leitura das obras de Marx, embora não aprovasse o regime imposto por Joseph Stalin, depois seguido por Nikita Kruschev. Aqueles ditadores não conheciam os limites entre o dever do Estado e os direitos dos cidadãos. Eram criminosos comuns, investidos nos mais altos cargos do Comitê e não representavam a essência da doutrina marxista. A bodega de seo Miguelim não ficou ornada com a bandeira do Brasil, nem com bandeirolas verdes e amarelas. Tampouco colocou uma foice e martelo simbolizando sua crença. Fiel a seus princípios, mas amante inveterado das coisas brasileiras, não sairia defendendo, de armas nas mãos, comunismo ou democracia, fosse o que fosse esperava o melhor pro povo. Muitos tinham o mesmo pensamento que seo Miguelim, porém despossuíam a coragem explícita do velho bodegueiro. O que mais o assustou foi a movimentação na rodovia que cortava a cidade. Os caminhões com soldados fortemente armados, com alguns mísseis e tanques cruzavam a estrada rumando pra Capital Federal. Pra ele não se tratava meramente de simples comemoração do dia da pátria, mas da derrubada do governo legalmente constituído. Os dias passaram e os mais pequeninos povoados, cidadezinhas que mal se encontravam nos mapas, até as maiores capitais estavam engalanadas. O povo acorreu às praças em clima de festa e alegria incontidas. Nos edifícios milhares de pessoas começaram a jogar papel picado que caía em cascata simbolizando a adesão ao chamamento pra comemorar tão significativa data. Enquanto o povão aplaudia o desfile cívico-militar, na Capital Federal, as tropas das três forças cercaram o palácio presidencial forçando a renúncia incontinente do mais alto mandatário do País. Nas ruas das cidades com maior população os estudantes nem tinham acabado de exibir seus uniformes de gala quando a notícia extraordinária do principal jornal da televisão explodiu: — os militares acabaram de depor o presidente da República. Foi um período duro de transição. Milhares de jovens, mulheres, funcionários públicos, artistas, escritores, políticos e gente simples do povo acabaram atrás das grades ou em campos de futebol transformados em prisões. Estava implantado o regime de exceção. Os anos foram passados e a população acabou por conviver com a ditadura, mesmo sem entender a razão de tão drástica mudança. Alguns poucos formaram movimentos clandestinos de combate ao regime ditatorial e eram caçados ferozmente pelo que denominaram forças da repressão. Seo Miguelim ficou transtornado quando viu o pelotão policial se aproximar da bodega. Atrás vinha a multidão constituída pelos principais dependuradores de contas do seu pequeno estabelecimento comercial. Com o dedo em riste o apontavam e gritavam: — prendam ele! Ele é comunista! Vive falando de um tal de Karl Marx! – O velho bodegueiro se assustou com a ferocidade da turba, que semanas antes não deixava o balcão, passando horas ouvindo contar histórias acontecidas na época da Segunda Grande Guerra Mundial. Não representava perigo algum, senão pra seus devedores, pois que suas contas um dia seriam cobradas. Quem pensar que o calejado comerciante era bobo se enganou completamente. Guardou em lugar bem protegido todas as cadernetas, já antevendo que mais cedo ou mais tarde seria levado pra prisão. Quando saísse cobraria, de todos, com juros e correção monetária a divida, não pela dívida em si, mas pela falsidade! Os tempos passaram e os militares reconheceram que tinham cumprido, mais uma vez, seu papel na História. Decidiram convocar eleições pra vereadores, prefeitos, deputados estaduais, governadores, senadores e presidente. A maior parte da população achou que a notícia era brincadeira de mal gosto de repórter sem ter o que fazer, mas não! A Junta Militar que governava o País fez pronunciamento em rede nacional de teleisão comunicando que a missão estava concluída e que a democracia fora plenamente restabelecida. O assanhamento do povo foi geral. Em poucos meses o que mais se via pelas ruas eram santinhos espalhados pelo chão, enormes cartazes de candidatos, faixas enaltecendo fulano ou sicrano como o melhor candidato. Uma balbúrdia sem fim. Não piorassem as coisas porque os militares estavam de olho no procedimento dos civis e se necessário fosse interviriam novamente. Pra seo Miguelim, civil no poder significava corrupção e era o que mais temia. Dinheiro público destinado à Saúde, à Segurança Pública, à Educação e às tão necessárias obras de infraestrutura seriam desviadas, como sempre foram, para as contas de políticos nos maravilhosos paraísos fiscais e não havia um só promotor ou juiz federal capaz de enfrentar a máfia infiltrada nos governos. Não lamentou o tempo passado nos porões da ditadura. Lamentou isto sim, a volta ao poder dos velhos caciques que agora vinham com apetite redobrado. As acirradas campanhas eleitorais pra todos os níveis pipocavam exaltando todos os ânimos. Inventaram partidos que possuíam apenas dois ou três filiados. A perniciosa proliferação de siglas fora instituída pra mais tarde cobrar dos eleitos o preço do apoio. Em breve seria implantada a máxima de São Francisco: é dando que se recebe. E como os urubus da política receberiam! O País acordou em festa no três de novembro, dia da eleição. Cabos eleitorais emporcalharam as ruas e ruelas de todas as cidades, esparramando santinhos de seus candidatos, a grande maioria constituída por analfabetos, fichados na polícia por crime de corrupção. Mas o processo eleitoral era um vale-tudo incomensurável. Seis candidatos concorreram à presidência. Os dois mais bem votados disputariam o segundo turno. Com quarenta e quatro por centos dos votos, Asdrúbal Camaleão foi o candidato da oposição, antigo aliado do regime, ele pensava que era benquisto pelos militares. Em segundo lugar, com vinte e oito por cento ficou Marginaldo Sinfrônio. A bem da verdade o segundo colocado não era páreo pra Asdrúbal Camaleão, cujo nome já dava pra ter vaga ideia de sua esperteza. O povão estava atarantado com as promessas de Asdrúbal Cameleão. No primeiro ano de seu governo não existiria mais nenhum desempregado no País, todas as estradas seriam asfaltadas, construiria milhares de escolas e hospitais, importaria as mais modernas armas pras polícias, implantaria moderno sistema único de saúde pra população carente, coisa de fazer inveja aos países do primeiro mundo. Logo após sua posse não foi bem isto o que se viu publicado no Diário Oficial. Os ministros de Estado, escolhidos a dedos, eram notórios componentes das máfias que durantes anos desviaram milhões de dólares dos cofres públicos, mesmo inclusive no período da ditadura. Encontrar um indicado honesto em qualquer dos escalões do governo era tarefa mais difícil que achar uma agulha no palheiro. A outra grande surpresa veio estampada no Diário Oficial do segundo dia de governo. Um decreto determinava o fechamento de todas as bibliotecas públicas, sob a alegação de que todas seriam reformadas, enquanto o edital da maior licitação pra aquisição de novas obras estava sendo preparado. O jornal oficial não alcançava a grande massa, mas a televisão sim. Estarrecidos entrevistadores se postaram diante do palácio presidencial à cata de maiores esclarecimentos. Não havia engano. As bibliotecas estavam terminantemente proibidas de funcionar até que o processo licitatório fosse concluído e as obras entregues. Não havia a menor condição de recorrer, também não havia pra quem. Absurdos daqui, absurdos dali, e Asdrúbal Camaleão foi levando seu governo de desmandos, sem que acontecesse o menor esboço de resistência. O Congresso Nacional não estava engessado. Era simplesmente corrupto, fazia o que o presidente determinava quando as emendas eram liberadas. Sem emendas, sem dinheiro no bolso. A única reação nascia e crescia no seio das universidades federais. Indignados alunos e professores começaram a movimentar criando subterrâneo movimento de resistência. Alunos e professores dos ensinos fundamental e médio se aglomeraram ao redor da primeira grande manifestação contrária às atitudes de Asdrúbal Camaleão. Chamava constantemente o ministro da Justiça procurando encontrar brechas na lei pra enquadrar alunos e professores, sem sucesso, Era preciso editar um decreto, pois temia demora na aprovação de medida provisória. Tinha o Congresso nas mãos, mas não sabia até quando. E os desmandos continuaram assustando a população. Obras começavam e paravam mal concluídas as fundações. Nos hospitais públicos a falta de medicamentos e materiais pras cirurgias era uma constante. As estradas não suportavam o transporte das sucessivas safras de grãos, que batiam todos os recordes. Nas escolas, até mesmo nas universidades os alunos eram obrigados a levar suas cadeiras, pois os equipamentos públicos estavam em pandarecos. O crime organizado dirigia até os presídios de segurança máxima. Nas favelas os cadáveres de integrantes de facções rivais apodreciam. Os rabecões caindo aos pedaços não eram suficientes pra transportá-los pro Instituto Médico Legal e nem havia profissionais suficientes pra realização de tantas autópsias. Nos aeroportos o movimento era intenso, milhares de pessoas decidiram sair do País temendo uma guerra civil. Enquanto isto Asdrúbal Camaleão reinava impunemente. Inconformado com a queda de popularidade determinou o fechamento de todos os jornais e editoras, exceção feita ao Diário Oficial da União. Em sua extremada loucura mandou publicar no dia da Independência o lacônico decreto: Decreto número 2001. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere a Constituição da República Federativa do Brasil, DECRETA: Artigo lº – É proibido ler. Artigo 2º - Este Decreto entra em vigor na data de sua Publicação. Brasília, 7 de setembro de 2020, 208º da Independência, 131º da República. A indignação com o ato presidencial foi generalizada. Estivesse ladeado por assessores capacitados não teria cometido a mais tremenda de todas as suas burrices governamentais. As crianças do ensino fundamental foram as primeiras a repudiar o decreto. Incitaram os pais a rebelar contra a extremada medida. A revolta alastrou-se país afora. Nos dias seguintes a movimentação tomou corpo e milhares de ônibus rumaram pra Capital Federal. Aqueles pequeninos se sentiram ultrajados com a proibição da leitura nas escolas, nas pracinhas, em casa. Certo é que o governo não tinha como fiscalizar, mas só a truculência do aparato policial já era suficiente para inibir o prazer de apanhar um livro na estante e começar a lê-lo. Os mais importantes jornais do mundo estamparam nas primeiras páginas enormes manchetes e extensas reportagens expondo o terror implantado pelo primeiro presidente civil pós ditadura militar. A Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes ficaram pequenas pra abrigar tantas crianças que abriram suas faixas exigindo a renúncia do presidente da República. Elas não queriam a revogação do decreto, pois ardiloso como demonstrara ser, logo arranjaria outro meio de tentar amordaçar a população. Acamparam. Promoveram estardalhaço de tal magnitude que ninguém conseguia trabalhar, fosse nos ministérios, fosse no Congresso, no palácio presidencial ou no Supremo Tribunal Federal. O embate prosseguiu com o presidente tentando resistir ao pedido de renúncia. Os congressistas começaram a debandar, esvaziando a base aliada. Asdrúbal Camaleão se viu perdidamente só. No palácio não restou um só funcionário que fosse, mesmo o menos graduado. Apenas a secretária, que de quando em onde, servia seu cafezinho e as refeições que ela mesma preparava. E mais ônibus chegaram transformando as imediações da torre de televisão e o Palácio Buriti em acampamento. A criançada amadureceria ali, sem temer qualquer represália. Foram semanas de comoção até que, na única atitude sensata, Asdrúbal Camaleão optou por renunciar à presidência da República. Agora as crianças podiam voltar novamente a ler.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O ÚLTIMO TIRO

Na verdade não sei quantos anos fiquei perdido naquele pensamento. É bem possível que tudo não tivesse passado de um sonho ruim, mas o final ficou lá posto: o corpo do homem estendido no chão, bem diante dele, eu e minha fumegante arma de fogo. Ora bolas foi apenas mais uma morte. Mas porque aquele pequenino demônio que decidiu fixar sua moradia dentro de mim continuava martelando em minha cabeça todas as aquelas miseráveis lembranças? Não bastava eu ter sido predestinado pra ser o executor de um homem que nunca dantes tinha visto na vida? Era pouco sabê-lo casado, pai de três filhos pequeninos, feitos em escadinha, marido de mulher exemplar, que jamais abriu a boca pra xingar o menor dos passarinhos? Filho de pais amantíssimos que todos os domingos descambavam de seus pagos, atravessando o perigoso riacho de águas tortuosas, o famigerado Filó Preto, pra passar os mais doces momentos com nora, netos e o filho perdidamente tão querido? Era pouco saber que finei sem o menor remorso uma pessoa que nunca atravessou meu caminho, e jamais ousou olhar-me nos fundos dos olhos ou dirigir uma só palavra, por mais pequenina que fosse? E o diabinho lá dentro de mim apenas atiçando fogo nas cangalhas do pensamento: — qual o quê foi apenas ato de justiça, seu lugar no inferno depois desta está mais do que garantido! Se pensava, via o sangue escorrendo, os gemidos, os olhos estatelados, o chegar do estertor da morte, o momento do ir-se embora sem ter sabido a razão da morte, ou não saberia ele? Por certo que sim, pois se fui incumbido de cumprir a missão, o dito lá já morto deveras devia de reconhecer que seu fim se aproximava a largos passos, só que não presumia que ele estivesse tão próximo. E como estava. No fundo de meu coração doía aquela dor fininha, desengonçada, tremeliqueira, desavisada, desavergonhada, corroendo o de melhor de mim, sempre acusando os abusos cometidos. E lá estava eu ligando pra alguma coisa que não fosse receber pelo serviço pago? Fui, ou melhor, nasci pras incumbências solenes das jagunçagens e difícil por demais dizer que teria melhor destino não fosse o enveredar por esse caminho de sangue. Sangue feito e construído de dor e sofrimento, de angústias, revezes, alegrias (pra quem mandava executar), tristeza pra quem cumpria a sina de fazer o trabalho. Tudo isso é só uma mesma coisa que a gente tenta escapulir do significado, mas o marcante da violência fica resguardado na mente. Pior ainda, o danadinho do cramulhão, o pé de gancho que não perde um só momento de ficar assoprando nos ouvidos da gente: — muito bem valentão! Você provou mesmo que é cabra duro na queda, machão, dos de confiança, daqueles que se conta em todas as horas. Tô contigo e num abro! E se me foram dados os minutos de arrependimento. Bem sei não consegui qualquer significado de guarida. Tinha feito tiro certeiro. Infeliz de mim que sabia de meu precoce destino mesmo bem antes dele acontecer. Sempre foi assim. Nunca nada ocorrera sem que nos miolos moles meus pingasse uma ponta de indicação, como anunciando: amanhã você acabará com uma pomba de bando! E não é que mal e mal amanhecia e a primeira coisa que via na frente era ela e, eu, sem dó nem piedade punha a pedra no estilingue e atirava. Tanta certeza tinha da morte da pobre ave que corria de olhos fechados só pra ter o prazer de apanhar a bichinha que ainda estrebuchava. Acabava com seu sofrimento torcendo o pescoço, correndo pro riacho mais próximo pra depená-la, abri-la tirando suas partes, cortando em pedaços e assando ali mesmo na beira do mato. Ficava feliz? Ara se ficava, de imensa felicidade pra não perder de vista e fôlego. Nasci pra ser cruel. Mas, aquela hora não saía de minha cabeça. Difícil esquecer aquele momento, como se ele tivesse vindo pra marcar presença eterna. A forja da maldade estava instalada dentro de mim desde criança e, agora me sentindo adulto, sabia que não existia distanciamento entre o passado, o presente e o futuro que mal e mal se avizinhava. O que pintava na minha frente não parecia boa coisa. Acontece que mesmo desconfiado de tudo tinha pequena ponta de prazer em torturar, massacrar, aniquilar qualquer vivente que surgisse. Não importava o tamanho, peso, se era bicho de plumas, rasteiro. Cobras, lagartos, teiús, jacarés, passarinhos, o que os olhinhos espichados pra bem ver de longe alcançassem já estava preparado pra trucidar, esfolar, assar e devorar com apetite assassino. A história parou no meu peito, encravando unhas felinas não deixando que esquecesse o destino cheio de sangue que, de pouco em pouco, deixaria pelo meu longo caminho. Talvez por algumas horas me sentisse possuído pelo demo, mas acho que não era bem assim. Nascera predestinado pra ser ruim. Não adiantaria nada tentar fugir do que já fora escrito pra ser minha vida bem antes mesmo do nascimento. Tava tudo lá posto no livrão que me acompanharia em cada passo dado. Um tiro! Uma queda! Uma vida! Qual maior prazer pra mim senão o de sentir detentor de decisões extremadas? Não era um bode velho, caquético, doente. Invés disso, possuidor de fortaleza corporal e mental invejável. A boca demonstrava o prazer enorme que sentia ao despachar quem fosse pro outro lado da vida. Céu? Inferno? Nem nunca quis saber aonde o dito cujo ia, sabia apenas que tinha despachado mais um. Tão só! Por Romulo Nétto - as duas primeiras páginas do meu livro inédito O ÚLTIMO TIRO.

SERTÃO DE SANGUE

Dizia que estrelas são almas penadas que vagavam pela imensidão do céu depois de desocuparem os corpos aqui na terra. Indagado sobre a razão pela qual elas não se moviam escapulia com as respostas mais extravagantes.  Uai! É que elas não gostam de ser observadas. Então quando o mundo adormece, elas começam a dançar rasgando o infinito azul com seus rabos enchameados, parindo fogo, buscando lugar pra se esconder dos maldosos olhares humanos. E quem de nós podia contestar suas verdades? Arguto como são os matutos profundos conhecedores das mentes, adivinhadores dos mais tênues e tenebrosos pensamentos ele não escondia suas desconfianças: o homem está ficando cada vez mais ganancioso e perigoso. Parava um momento. Cofiava a barba rala, picava o fumo de corda, alisava a palha de milho, aprontava o cigarro e se perdia num pitar sem fim. Tava pouco ligando se o dia se renderia ao calor do sol. Logo ali, a dois palmos e meio de distância, a vereda estava pronta pra receber seu corpo nu, acariciando as partes, refrescando a mente, pondo na cachola mais coisas pra desvendar.  Hum! Hum! Pra que mais descobertas a fazer?  Venerava seus muxoxos e não sabia a razão de suas espertezas. Nunca dormia com os dois olhos fechados. Essa prática antiga salvou-lhe a vida diversas ocasiões. Ninguém sabia de onde arrancava o dinheiro que usava pra pagar, religiosamente as despesas que fazia nas vendas do vilarejo. Ladrão ele não era, pois jamais arredara os pés da região. Trabalhar mesmo, aquele trabalho duro, suado, empreitadas de sol a sol, não era muito chegado. Mas dinheirinho curto, contado, de notas amassadas e moedas meio carcomidas pelo tempo, ele tinha pro sustento e dava de sobrar de quando em onde um pouco. Não que fosse mão de vaca. Gastava com parcimônia e certeza de quem se proibia cometer excessos. Luxo? Não! nem num era chegado a tais desesperos. Amava a noite como nós amamos as mulheres. Seu prazer maior era ficar escarafunchando o céu esperando a primeira estrela aparecer, com seu brilho fogoso, convidativo, pra boa pitada ou generosa primeira e única dose noturna da cachaça escolhida a dedo entre as inúmeras garrafas da venda de seo Jacó, o turco desnaturado. Do lado da casinha a mirrada horta com dois ou três pés de tomate, couve, pimenta malagueta, batata doce em profusão. Mais ao largo as bananeiras, mangueiras, laranjeiras e o imenso cajueiro que frutificavam o ano inteiro. O poço que furara a duras penas, mas recompensado pela fartura d’água, que mesmo nas maiores secas jamais o deixara com sede. Dali retirava latas e latas pra regar sua pequena horta e as plantas. No pequeno cercado os dois pangarés de estimação. Mal punha os pés fora da casinha e os bichos despencavam numa danadeira de relinchos, aguardando a comida farta. Milho, capim picado com carinho e prazer, além da necessária colherada de sal fino. Quando sentia saudade das redondezas selava um dos animais e disparava mundão afora, mesmo sabendo que o outro cavalo ficava relinchando, pisoteando raivoso o chão duro, furioso por não ter sido o escolhido. Até parecia que o bicho pensava, dizer dele. E varava o dia, pra na volta trazer buritis, gabirobas, às vezes um tatu, noutras vezes uma capivara. Passava horas limpando e manteando suas caças. Gostava de chupar as frutas deixando o forte caldo escorrer pelo queixo empapando a barba que apresentava os primeiros sinais de embranquecimento. O chão cavucado há tempos imemoriais estava sempre pronto esperando apenas que pedaços de angico fossem colocados e acesos. Ali ele passava horas assando suas caças. O mundo não lhe dava outras coisas pra fazer e se sentia recompensado com o poder ficar à toa, descompromissado com o tempo, apenas preocupado em viver sua vida da maneira mais pachorrenta possível. Assim era aquele matuto: um sábio da natureza. Precoce em seus conhecimentos sobre flores, frutas, pássaros e bichos rastejantes ou não. Ouvido apurado distinguia de longe por onde uma onça desavisada preparava seu pulo, ou a cascavel aguardava sua comida. Vez por outra praticava pequenas maldades apanhado dos ninhos das aves os ovos com os quais preparava a farta farofa com couve e pedaços de toucinho de barrigada de capivara. Esparramava o corpo na velha e carcomida rede, colocava sobre o tamborete o bule com café escaldante e na velha lata de goiabada a farofa. Enchia a mão e lançava na boca escancarada empurrando goela abaixo com boa golada de café que descia queimando e rasgando o peito. Por vezes tossia, mas logo se acalmava. Dizia que nada mais falta lhe fazia. Mas pensando bem talvez uma mulher fizesse a diferença. Qual o quê! Ele não se dava ao desfrute de sair zanzando à noite pelos dois únicos bares da cidade à cata de companhia feminina, menos ainda, frequentar a missa mensal apenas porque lá poderia encontrar fermoso rabo de saia. Domingo pra ele não era dia de ir até o vilarejo, senão de tirar a alpercata de carreiro, chafurdar os pés no lodo das beiradas veredianas, esquecer-se por longas horas, deixando o sol tisnar-lhe ainda mais a pele curtida pelas longas cavalgadas ou caminhadas com o torso nu. De longe divisou a aproximação de três cavaleiros. Quem diabos enfrentaria aquele sol de inferno vestindo grossas capas Ideal? Boa gente decerto não seria e também não lhe pareceu que viessem carregados em boa paz. Por Romulo Nétto - as primeiras páginas do livro SERTÃO DE SANGUE, a ser lançado brevemente.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Lula é vagabundo com todas as letras e definições, mas crê que seus desafetos são iguais a ele

Dono de verborragia que não coaduna com o cargo que ocupou, Luiz Inácio da Silva é o retrato vivo do pior e mais corrupto período político da história do Brasil. Lula, o semideus, tem motivos de sobra para estar atormentado, mas descontrole sempre foi o seu forte, especialmente quando está acuado e tenta reagir. Essa atitude animalesca de ir contra o eventual predador faz de Lula um personagem da pior espécie, um exemplar détraqué da raça humana. Covarde contumaz, pois nunca fala o que pensa a respeito de alguém de forma direta e objetiva, Lula certa feita chamou de “idiota” o secretário-geral da FIFA, Jérome Valcke, que cometeu o pecado de externar sua justa preocupação com os aeroportos brasileiros. Herói de botequim, pois só os ébrios se enchem de repentina coragem, o ex-presidente vociferou a ofensa de maneira transversa e inominada, pois o ex-metalúrgico não honra as calças que veste. Lula é um borra-botas com todas as letras. Preocupado com os desdobramentos de diversos escândalos de corrupção, os quais podem levá-lo de roldão ao núcleo de cada um dos imbróglios, Lula saiu de cena durante duas semanas, tempo suficiente para a camarilha petista organizar um esquema de blindagem e disparar ordens aos genuflexos filiados ao partido. Montada a farsa, Lula voltou de viagem com meia dúzia de palestras canceladas, o que turbinou ainda mais a sua ira. Não pelo dinheiro que deixará de receber, pois o vil metal ele soube amealhar durante os oito anos em que esteve no Palácio do Planalto, mas pelos arranhões em sua imagem. Sem saber no que podem dar as investigações do Ministério Público Federal a partir das recentes denúncias de Marcos Valério ou, então, temendo um descontrole de Rosemary Noronha, a Marquesa de Garanhuns, que pode abrir a boca a qualquer momento e revelar o que sabe, Lula está literalmente atordoado. Cenário nada favorável para quem está se recuperando de um câncer. Durante evento no ABC paulista, onde falou para ensandecida claque de sindicalistas, Lula voltou a abusar do “non sense” e declarou que percorrerá o Brasil em 2013 e que não será derrotado por qualquer “vagabundo”. Como sempre tomado pela covardia, o ex-metalúrgico mandou um recado sem destinatário e sem endereço, pois metade do Brasil quer vê-lo derrotado. Considerando que o que mais lhe preocupa no momento é uma eventual ação do Ministério Público, Lula pode ter chamado Roberto Gurgel de “vagabundo”. Se o procurador-geral da República era o alvo do xingamento, Lula pode ter se equivocado e precipitado, pois de “vagabundo” ele nada atem. Até porque, Roberto Gurgel prometeu entregar no STF, na sexta-feira, o pedido de prisão imediata dos mensaleiros condenados, mas se antecipou e entregou dois dias antes. Em outras palavras, Gurgel, diferentemente de um “vagabundo”, trabalhou arduamente e com afinco e celeridade. Considerando que o MP é o seu calcanhar de Aquiles, Lula pode ter chamado de “vagabundo” o seu outrora salvador e agora desafeto Marcos Valério, que foi até Roberto Gurgel para contar detalhes extras e comprometedores sobre o Mensalão do PT, que o ex-presidente inicialmente admitiu, depois negou, para, ao final, dizer que foi um golpe articulado pela oposição, setores da imprensa e Judiciário. O que mostra que a Lula falta imaginação e criatividade, pois o discurso é velho e repetitivo. Admitindo que Lula tenha usado o vernáculo “vagabundo” para se referir ao publicitário mineiro, apenas porque contou um pouco de tudo o que sabe, Lula deveria conceder a mesma deferência a Roberto Jefferson, o delator do Mensalão do PT. Que também contou o que sabia, quiçá apenas parte. Se na opinião de Lula o operador do mensalão é “vagabundo” porque foi condenado, vagabundos também são os outros 24 condenados. Se a namorada Rosemary Noronha não suportar a pressão, surtar e resolver contar tudo o que de errado aconteceu no escritório paulistano da Presidência da República, Lula, por questão de coerência, terá de chamá-la de “vagabunda”. O que ninguém sabe se esse é o real pensamento de Dona Marisa sobre a Marquesa de Garanhuns. Como o seu primeiro diploma foi o de presidente da República, Lula pode não saber o significado exato da palavra “vagabundo”. Nos bons dicionários da língua portuguesa, que o petista jamais ousou abrir ao menos uma vez, há diversas definições para “vagabundo”. A primeira faz menção àquele que é nômade, andarilho, vagamundo. Tomando por base as inúmeras, quase intermináveis, viagens internacionais que fez, Lula é um “vagabundo”. Levando-se a sério a afirmação de que ele andará pelo Brasil, em 2013, Lula está prestes a ser novamente um “vagabundo”. A segunda definição para o vernáculo também se encaixa com Lula, pois faz referência àquele que é “vadio, desocupado ou que faz as coisas sem vontade”. Pois bem, voltando no tempo e parando em 1988, ano da Assembleia Nacional Constituinte, Lula, alegando que no Congresso existiam trezentos picaretas, virou as costas e não mais voltou à labuta. Como estava sem vontade de cumprir os compromissos de um parlamentar, Lula tornou-se um “vagabundo”. Durante parte da vida, Lula se instalou na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos, cargo típico de desocupado. Portanto, segundo o Aulete, Lula é “vagabundo” de longa data. A terceira definição do dicionário para a palavra “vagabundo” refere-se a quem demonstra inconstância ou é volúvel. Analisando sua ideologia ao longo dos anos, Lula é um perfeito “vagabundo”. Em relação a ser solúvel, Lula é um “vagabundo” inconteste. Afinal, durante duas décadas criticou os banqueiros e o FMI, mas para chegar ao poder se aliou aos primeiros e depois emprestou dinheiro ao segundo. Outra prova da sua volubilidade está relacionada ao senador José Sarney, a quem criticou com palavras duras durante longos anos, mas no primeiro aperto na presidência pediu ajuda ao maranhense. A quarta definição faz referência ao reles, ordinário, inferior. Como presidente ele conseguiu ser reles. Como político não precisou de esforço algum para ser ordinário, que é aquele de baixo valor moral e intelectual. Como alguém que promete e não cumpre, ele é inferior. Resumindo, nesses três quesitos Lula não deixa dúvidas de que é um “vagabundo” de carteirinha e com direito a fã clube. Por fim, o dicionário traz uma definição que faz referência a quem é infame, canalha e desonesto. No quesito da infâmia, Lula é um “vagabundo” ousado e mundialmente conhecido. Como o canalha é aquele que comete ações “vis, desprezíveis e indignas”, segundo o Aulete, Lula é um perfeito “vagabundo”. Na seara da desonestidade, Lula já mostrou essa sua vertente ao abafar escândalos diversos. Um deles foi o do fatídico Dossiê Cuiabá, cujos aloprados foram presos pela Polícia Federal, em São Paulo, com R$ 1,7 milhão em dinheiro. E o delegado do caso foi afastado. Outro viés da sua desonestidade ficou provado na tentativa de chantagear o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, para que o julgamento do Mensalão do PT fosse adiado. Somando tudo isso, Lula é um “vagabundo” considerável. Hoje, Lula não passa de um reles cidadão e a ele me dirijo como sempre fiz nos tempos de presidência. Assim como milhões de brasileiros de bem, considero Lula um vagabundo com todas as letras e rimas, além de acintoso. O que causa mais tristeza é que durante oito anos, por culpa de uma parcela incauta que foi abduzida pelas esmolas sociais e pelas pilhas de carnês vencidos, o Brasil esteve nas mãos de um vagabundo, agora sem as aspas porque a declaração é minha e não sou covarde como ele, que destruiu o País, levando-o à encruzilhada da insolubilidade. Coisa de vagabundo. Caso Lula ouse me chamar de vagabundo, esse vagabundo terá de acertar as contas comigo, pois o meu conhecimento e o meu intelecto não me permitem uma nivelação tão rasa, chula e desprezível. Como o Natal está batendo à porta, pedirei ao bom Noel, mesmo com certo atraso, um presente não material. Que Lula deixe de aparecer por causa das sandices que balbucia, não sem antes se contentar com a insignificância de um vagabundo que acredita ser herdeiro de Aladim. E eu, Lula, mesmo não sendo um vagabundo desses que você conhece, farei tudo o que estiver ao meu alcance para derrotá-lo. Anote! Postado por Ucho Haddad no Ucho.Info

sábado, 1 de dezembro de 2012

SERAPIÃO FALA MOLE

Serapião Fala Mole Serapião Fala Mole nunca escondeu de ninguém sua loucura. Dizia que se alimentava de ventos e sonhos. Escrachava, lembrando a todos a impossibilidade de lhe roubarem os alimentos. Se chovesse arranjava um gramado fofo, estatelava-se, abria a bocarra deixando a água descer pela garganta com a força de corredeira. Quando a chuva cessava, dando início ao período seco, cofiava a barba, preguiçoso, media a distância que o separava do Riacho de Sangue, pesava os prós e os contras, pra depois, só ao saber a língua esturricando arriscava mover-se à cata de algum filete d’água onde pudesse matar a sede. Soletrava lua e estrelas quando o céu se encharcava de azul, brindando os olhos com clarões de feri-los quase ao ponto de cegar. Desconversava ligeiro quando alguém se achando mais esperto tentava fazê-lo dizer o que não devia. Muitos por sua esquisitice o julgavam viciado em drogas. Respondia que era viciado na vida. Nada mais. Agora mesmo estava de bem com o mundo. Queria se entupir de alegria, andar sem destino, cavalgar os raios do sol. Essas loucuras se apossavam dele, sem mais nem menos, mas Serapião aprendeu a viver com todas as doidices e não dava muita bola pro que pensavam a seu respeito. Era tempo de jabuticaba e ele ficava sentado, esquecido de tudo, xingando a natureza, pois que ele tinha vontade era de chupar gabiroba. Seus tempos e coisas pareciam ter mudado. Sossego, calma, o olhar perdido em busca do futuro pareciam reinar, dando a Serapião Fala Mole convicção que não podia se esconder detrás de morros e moitas, deixando que as pessoas buscassem respostas pras perguntas ainda não feitas. Era homem de poucas palavras, mas jamais largava companheiros na mão. Bisbilhotava tudo querendo descobrir o que movia o mundo. Patético, alegre, cabisbaixo ou triste só se encontrava quando dava de cara com a Cachoeira de Livros. As gentes de Ipê-branco, minúsculo povoado que o progresso se esqueceu há tempos de olhar, reclamavam dizendo que as loucuras de Serapião Fala Mole impediam o governo estadual, mais preocupado com as exportações de soja transgênica, milho, algodão, etanol, arroz e madeira extraída ilegalmente das reservas indígenas, de investir naquelas bandas, deixando-os morrer quase que à míngua. Há mais de dois anos que um médico da Secretaria de Saúde não visitava a comunidade. Quem fosse acometido de algum mal súbito tinha que se virar procurando a cidade mais próxima. Quando dizia que vinha de Ipê-branco no sempre era largado em qualquer canto, esperando a morte chegar. O abandono chegou a tal ponto que o povo do Ipê, agora preferia morrer aos poucos, devagarinho, na solidão de seus ermos, sem se preocupar em buscar alívio pros seus males nas vizinhanças. Ademais aquela gente nunca virava as costas aos amigos, mesmo quando acreditava que aquela pessoa poderia destruir o povoado. Mas ninguém acreditava que Serapião Fala Mole fosse tão ruim a ponto de provocar o desaparecimento de Ipê-branco do mapa. Podia ser lelé da cuca, variado, mas todos o sabiam e reconheciam inofensivo, um louco manso, cujo único mal era dizer verdades e viver lendo solitariamente seus livros debaixo de sol ou chuva. O povão só moderava a perseguição acirrada quando ele colhia a cana-de-açúcar, prepa-rando em seu improvisado alambique a pinga de orelha, especialíssima e com parte dela produzia centenas de litros dos mais variados licores. Festa junina sem a bebida apurada de Serapião Fala Mole era impensável. Por mais brasileira que fosse aquela população, acostumada a roubar até galinha morta, algo estranho acontecia com a produção de Serapião. Ele deixava suas garrafas sobre imensa mesa ou dentro de caixas, com o preço. Ao lado uma espécie de urna onde deveria ser colocado o valor de cada garrafa. Durante anos nunca foi passado pra trás. No outro dia, depois da festança, pela manhã, quando vinha conferir o resultado da venda, sempre encontrava o equivalente às garrafas deixadas nas caixas. O povo não tinha coragem de roubá-lo, embora fosse capaz de persegui-lo e atormentá-lo. Indecifráveis mistérios da mente humana. A população do povoado não entendia de onde Serapião Fala Mole arrancava tantos li-vros. Perguntado se fazia de desentendido aumentando ainda mais a curiosidade. Certo é que as crianças da única escola da comunidade recebiam regularmente dezenas de livros e elas cuidavam de devorá-los, com urgência, prevendo a chegada de outros, em breve espaço de tempo. No fundo existia terna cumplicidade entre elas e seu benfeitor. Por mais que tentassem segui-lo, em determinado pedaço do caminho ele passarinhava e ninguém era capaz de encontrá-lo. O máximo que conseguiam enxergar era um gavião-anta, talvez a encarnação avoadeira de Serapião pra modo de se defender das maldades dos homens. Não havia de ser novidade. Muita gente acreditava nessa possibilidade, ainda que remota. Quando julho findou todos os ipês ficaram carecas. Bastava a primeira chuva pra eles folhescerem e depois vesprando a primavera florescerem. Era o tempo que Serapião Fala Mole mais gostava no ano. Podia dividir os momentos admirando flores, insetos e livros. Tinha vaga notícia do futuro, mas sabia que havia um lugar reservado pra recebê-lo. Jurava de pés juntos que lá estaria sozinho ou bem acompanhado. Mas não via razão em se emaranhar nessas brenhas já que tinha por obrigação viver cada momento do presente. E seu tempo se resumia em plantar e colher livros. Destino ou perdição. Eram certezas que mal e mal conseguia sustentar em suas pernas de andador desnaturado. Pra ele, hoje foi dia de festa, arrancou uma dúzia de livros que julgava não mais encontrar em lugar algum, mas lá estavam eles, enfileirados, alguns semiabertos. Enroscado no Pequeno Príncipe encontrou Reinações de Narizinho. Apanhou os dois de uma só vez e se pôs a lê-los com ganância. Os pestinhas viviam fugindo, quanto mais os procurava, mais escafediam, como pretendessem tornar livros raros. Mas, enfim, os danadinhos foram agarrados, sem chance de fuga. Enfurnou na leitura acabando por esquecer todos os outros problemas que o afligiam, a Até da fome costumeira que naquela hora o rondava tal qual praga de mulher grávida sem desejos satisfeitos. Mas o que de melhor havia no mundo, além do livro companheiro para os momentos mais difíceis? Quando aquele emaranhado de letras negou-lhe carinho? Ou o fez pensar di-reito, rejeitando as próprias pechas e aquelas que os invejosos lhe impunham? Já nem mais ligava quando alguém berrava ao vê-lo passar:  lá vem Serapião Fala Mole marido de livros! Por certo as pessoas tinham mesmo era mágoa por não conseguirem entender que ele descobrira o melhor alimento para a alma. E por serem mesquinhas queriam impedir que ele desfrutasse das gostosuras que encontrava em cada página lida. Foi por pura mangação que disseram pra ele que o céu, lugar que somente os bons al-cançavam abrigava a maior biblioteca do mundo. Em sua santa inocência Serapião Fala Mole acreditou piamente e passou a perseguir um meio de chegar até lá, mas queria provar primeiro, antes de morrer, pois se perguntava a todo momento: – será que depois de morto ainda saberei ler? Será que terei olhos ansiosos à cata de um bom livro? Uma resposta que só cabia mesmo na boca do tempo. Quando ficava por demais de aperreado enfiava a fuça no primeiro compêndio que en-contrava pela frente. Serapião adorava falar compêndio. Enchia a boca de satisfação irritando as pessoas que, em suas santas ignorâncias acreditavam que ele estava xingando cada uma delas. Nessas horas se contorcia em risadas, enfurecendo ainda mais o povaréu, que, por vezes corria atrás do padre pra modo de descobrir o significado das palavras. Mas nem sempre tudo dava certo, pois acabavam esquecendo o que tinham escutado, enraivecendo o pároco que dizia ter mais o que fazer além de ficar ouvindo queixumes e fofocas. É por isso que Serapião Fala Mole gostava mais das crianças. Elas, no máximo, tentavam irritá-lo com alguma brincadeira ou grosseria, que de bom coração perdoava. Num longínquo dia fora criança arteira, o que permitia compreender e aceitar tudo que viesse delas. Por vezes discordava, envermelhava a cara, socava o ar com raiva, mas tudo coisa passageira, nada que um bom livro ou pequena história contada bem devagarinho não curasse. Sabia de antemão que não tinha tempo para se ocupar guardando mágoas ou criando desafetos. A vida era tão curta, impossível dividi-la com quizilas. Só via o que era belo. E o que era belo estava encerrado sempre nas páginas dos livros. Não deixava por menos. Queria incutir na cabeça daquela criançada o valor da leitura e assim ia levando a vida, rompendo barreiras, construindo um novo mundo. Não esperava recompensas terrenas. Aceitava de bom grado o que tinha, pouco se im-portando com aquilo que a vida negava. Já não mais guardava rancor das pessoas que costumeiramente gostavam de chamá-lo louco. Sabia vagamente que sua loucura era de lucidez estonteante. Bastava-lhe reconhecer incapaz de fazer o mal a qualquer vivente. Depois, bom depois, ele tinha consolo nos livros... Quando ouviu dizer que o céu era um lugar bonito, com uma biblioteca imensa, livros em todas as línguas e de todos os lugares, até da esquecida Paracatu, achou que era tempo de abandonar os evangélicos que só viviam pedindo dízimo, sem nunca ter lhe dado um só livro. Além do mais eles não acreditavam em santos e como ele poderia chegar até aquela biblioteca sem antes passar por São Pedro? Assim se converteu ao cristianismo, na esperança de conseguir seu lugar bem ao lado daquilo que amava por sobre todas as coisas: os livros. Nem se deu ao luxo de avisar ao famigerado pastor de sua igreja. Ele, esperto como cão raivoso, tentaria todos os meios para convencê-lo a mudar de ideia. Qual o quê! queria milhares de livros a seu redor e daquele um miserável não arrancaria nada. Virou assíduo frequentador da igreja. Se dependesse dele não perdia uma missa. Até mesmo as celebradas nos dias úteis. Por vezes estava agarrado num livrinho quando ouvia o sino repicar. Deixava tudo de la-do e corria sem olhar pros lados. Não gostava de chegar atrasado, temendo assim perder seu lugar no céu. E os anos foram atravessando e cada vez mais Serapião Fala Mole acreditava que estava aos poucos garantindo seu lugar. Arrepiava todinho só em pensar na livraiada esparramada pelas mesas da enorme biblioteca, podendo pegar um por um sem que ninguém viesse chamar sua atenção. Igual a sua Cachoeira de Livros. Jamais foi proibido de escolher. Dependendo da época, se era tempo das chuvas, a queda d’água se avolumava ainda mais despejando ensurdecedoramente enorme quantidade de brochuras que brilhava quando o sol batia de frente. Era um festival de luzes, cores e letras, dominando sua vida, seu pensamento. Apesar de tudo que fez pela criançada Serapião Fala Mole sabia que o povo de Ipê-branco sonhava descobrir a origem de seus livros. Muitos dali juram que aconteceu inesperadamente. Dizem que ao ser apanhado colhendo dezenas de exemplares na Cachoeira de Livros Se-rapião Fala Mole passarinhou de vez. Transformou-se em imenso gavião-real, com belíssimas asas de Grande Sertão: Veredas e bico de Vidas Secas alçando voo, rumando pro céu pra nunca mais voltar. (Serapião Fala Mole é o título do último livro de contos de Romulo Nétto, publicado pela Carlini & Caniato Editorial e será lançado em dezembro de 2012).

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

NOVAS LEITURAS

Recebi, em setembro último, um presente inestimável: Livros! - Ora, tesco, você ainda tem a casa cheia de livros, vive sorteando livros, compra livros, como é que recebeu um presente "inestimável"? Primeiro, porque considero livro o presente por excelência.. - Sei, como Suas Excelências da Câmara e do Senado, né? Não, nada a ver com essas referências abomináveis! "Vade retro"! Segundo, porque são livros de um autor que eu desconhecia. Por mérito exclusivo da mídia, diga-se, que prefere dar destaque a um escritor finlandês, casaquistanês, japonês ou australiano, a falar de um escritor brasileiro, mineiro como é o caso. - Não é isso tudo não. De vez em quando falam de Drummond, de Guimarães Rosa, de... Mas esses são conhecidos e consagrados! Refiro-me a caras novas. Esses não têm vez. E esse referido nem novato é, já tem 11 (onze) livros publicados. - Diga quem é, pode ser que eu conheça. Romulo Nétto. - Não, também conheço não. E é um ótimo escritor. Sua temática preferida é o sertão, seus habitantes típicos e seus problemas climáticos. Tem uma escrita dinâmica, que deixa sempre os leitores acordados. - Hum... Nesta temática temos bons escritores realmente. E qual é o estilo? Ah, aí cê me pegou, não entendo desse negócio de estilo literário. O que posso dizer é que ele me lembra o Graciliano Ramos. - Não quer dizer Guimarães Rosa, não? Não porque... Pra falar a verdade, ainda não li Guimarães. - O que?! Não leu Guimarães Rosa???? Acontece, né? Só li um trechinho: A história de Augusto Matraga. Mas a Sagarana toda já está na pauta. - Bem, menos mau. Mas quem lhe deu este "inestimáv... Deixe de zombaria e cuide de ler mais. O presente foi uma gentil oferta do próprio autor. "Meu mais novo amigo de infância", como diria a Yvonne.Como creio que os leitores deste blog também não têm intimidade com a escrita de Romulo, pretendo sorteá-los. Depois de lê-los, naturalmente. - Vai sortear os livros recebdos de preente? Isto não é uma desfeita não? Não vejo assim. Acho que o que é bom deve circular, e o Romulo não vai se ressentir por isto. Em novembro já teremos alguns no sortesco. Bem, tá dada a notícia, já posso voltar à leitura. Abraço do tesco. Postado originalmente por Roberto Dantas de Oliveira no www.tescoaqui.blogspot.com.br

sábado, 13 de outubro de 2012

A URNA DESMEMORIADA

Vidrão foi o primeiro a desconfiar que a urna-mãe estava desmemoriada. Pensou contar suas dúvidas ao Magrão, ele é mais sabido, estudava na Capital Federal. Se esparramasse todo mundo diria tratar-se de coisas de bêbado. Resolveu calar, ver o circo pegar fogo. As urnas da cidadezinha estavam interligadas numa simbiose de tecnologia, verdadeira parafernália, inacreditável praqueles capiaus. Inúmeras vezes eleitores chegavam à cabine e ficavam regongando. Uns enxeridos campeados pra fazer raiva nos mais nervosos que acabavam desistindo de votar. A maior parte voltava ao esfriar a cuca temendo punição. Vidrão impaciente visitou várias seções sem ouvir nenhuma reclamação. Pra ele a coisa tava esquisita. Não tirava nenhuma notícia de urna entrevada ou de greve. Certeza, certeza não tinha mas que a urna falou com ele, ah! isto falou mesmo! Um predestinado ou um bêbado variado? Tendo visões já de manhãzinha pela falta de um bom gole da Segura o Tombo. Afogado em dúvida desceu até a venda de Sô Lemos tomou enorme talagada da branquinha. Respirou aliviado, despencou pras imediações do fórum onde ficava a maior parte das seções. Cauteloso, sem chamar demasiada atenção indagava a quem não conhecia como fora a votação. Guarida não encontrou para aquartelar suas conjeturas. Beliscou o braço, a bunda, estapeou a cara. Sãozinho da silva. Diacho! O puto do Magrão não aparecia. O desgramado na certa ficou até altas horas arrastando a traseira no serrote modo de apazigar a atazanada paixão por Irene. Vaca desgranhenta, destrambelhada, tomando tempo do amigo, e ele ali sozinho carregando dúvida do tamanho das estrelas sem arranhar resposta por mais pequena que fosse. A garganta seca incitava despencar novamente até a venda de Sô Lemos. Vontade não faltava. Arre égua. Indecisão das grandes apunhalava o peito. E ele preso, os pés grudados no chão como se tivessem imãs. Pensou. Repensou uma saída, qual nada de resposta. O povo que entrava e saía do fórum arrastava cara de zumbi enfeitiçado. Se a malina fosse invenção do cramulhão, de função definida a esparramar discórdia e desunião entre eles? No seu tino a verdade aclarando sem jaça, desprovida de mistérios, artimanhas magicadas pelo coisa ruim. Nos antanhos os de mais respeito diziam que surgiriam criações de pôr cristão boaquiaberto, a barba de molho, coisas do arco da velha. Se benzeu mentalmente mijando perna abaixo numa tremedeira tal que os passantes olhavam de olhos arregalados. Vidrão vestira a carapuça da febre terçã, resmungavam. Fincado no chão como toco de amarrar jegue, sem mover um dedo e piscar um olho, a não ser tremer, tremer, mijar sem parar, mais se mostrando como cachoeira. A tremedeira por medo do chifrudo ou falta do destilado? Nhor que sim! nem Vidrão aguçando as ideias tinha resposta não. Apois! Mas a urna tinha falado com ele, lá isso tinha mesmo. Nessa hora desatinou num latinório sem fim. Ora pro nobis it missa est dominus vobiscum etc e tal. O sol castigando o cocuruto avisava que chegava o momento do almoço e ele entrevado não dispunha a levantar o pé, ameaçar qualquer passada. Homem de Deus, o que havera de estar acontecendo? O povo na discussão besta de que o presidente esconjurava o candidato da oposição. Caso ganhasse o país seria um miserê de fazer dó. Onde já se viu presidente sem anel de doutor? Vidrão gritava, mas seus gritos não saíam da garganta. Queria fazer o povão entender que a sorte fora jogada. O presidente atual tinha fodido ainda mais os pobres. Agora borrava nas calças de medo de revoltado subisse numa marcha sem fim até seu palácio e o degolasse. Qual o quê! O desafortunado perdera a voz, tamanho o susto. Feito estátua começou a desfiar seu rosário de pecado pra ninguém ouvir. Roubo de galinhas, laranjas, punhetas, quantas vezes trepara com Tibúrcia e não pagara? Ih! O inferno de boca aberta não faria de rogado, a fogueira pronta pra queimar seu corpo. Vixe que não podia ir-se embora sem resolver as pendengas, que ele não era homem de deixá-las como herança pra mulher e filhos. O mais importante a se anunciar na mente era sair daquele torpor. Pôr-se logo como vivo, disposto em luta, a fim de descobrir os porquês dos acontecimentos emboramente não atinasse como. No lancetar da memória tinha que espremer resposta por mais doida parecesse. Nem bem cessou a mijação arrebentou-se numa peidorreira mais assemelhando foguetório de porta de igreja nas noites de novena, quermesse em homenagem a Santantônio, padroeiro da cidade. Apoquentado com a situação Vidrão rumina seus pensamentos até sentir que fixaram tramela na boca, grilhões nos pés. Não arranca palavras, passos. Por certo transmudou-se em estátua pensante, dinossauro, fóssil de além mar, estranheza de ser garupando penar quando no vai chegando da vida tudo é festa. Quem será o culpado de tamanha desgraceira? Nem que quando criança tivesse caído num tonel de pinga causaria estrago lhe fazendo leso, lelé da cuca. Atarantado disparou xingamentos só ouvidos por ele mesmo. Suava às bicas. De ronco o bucho tava cheio, recomeçava a peidorreira, faltava-lhe borrar nas calças, completança de festa pra tristeza imensa sua. Nem seria por acaso filho de Deus? Mas Ele não erra nunca. Por certo havera de ter alguma culpa no cartório lá de cima. Bem que valia a sustança do jantar da noite passada: pratada de angu de milho verde com caldo de mocotó, cachaça sem batismo. De repetir por vezes, vendo formar o colarinho duradouro, marca maior da boa procedência e qualidade. Não fosse isso estava fodido e mal pago: sem saída, perdido, sem tenência de ser encontrado e desfeito o feitiço do tinhoso maledicente. Só não vê e sente suas agruras quem é cego de pensamento. Ah! se um dia ele se encontrar com o maldito há de querer quebrar a cara com soco de peso infindo. Na pasmaceira de seu estado de estátua queria regular os procedimentos do mundo, ditar normas pros investigadores pôr um fim na sua angústia de ser quase pedra. Desinferno de vida. Fosse são, bisbilhotaria o oco do inferno parando quando encontrasse o causador de tamanha tortura. Nada ficaria pra trás. Removeria tudo. O diacho do Magrão que não vem votar. Deve ter tomado porre de café preto coado em calcinha de mênstruo de noite de lua cheia preparado por Irene. Cai fora cobra d’água. Até mais ver. Belzebu esquartejado buliu com Vidrão mas não esparramou derrota em seu caminhar. Há imensidão de cascalheira a ser trilhada. O entrevero do dia não implica em derrota, batalha perdida, não a guerra. Algum beldroegas destemente a Deus haveria de ter se postado pratrasmente essa maldade. De miolo mole o estabanado prestou-se a esturpor de maledicência de grande quilate. No deve-haver das contas de sua vida caberia espaço vazio que não sucumbisse a horror tamanho, transformando-o em estátua viva? O cachorro sem dentes se redimiria nem que fosse nos quintos dos infernos, estrebuchando na fogueira, ardendo em brasa, pedindo perdão! Sabedor de quem não deve não teme apaziguou a consciência enquanto a roupa se encharca de suor fedorento. Pudesse taparia o nariz pra não sentir estranho odor, de proveniência sabida, mistura de cachaça com rabada, caldo de mocotó. O sino da igreja zuniu as doze badaladas. O sol a pino aumentava o sofrimento de Vidrão, embora dissesse pra si mesmo esperançoso. De repente se lhe voltam os movimentos, a fala, justo no instante que Magrão estapeava com força as costas. Puro milagre. A sorte retornara. Gaguejando, quase engolindo as palavras foi discorrendo o passado, sem fôlego, sem drama, desconfiança, ante um amigo estupefato. Difícil acreditar em bizarra confusão. Vidrão, entretanto não se enveredava em mentiras. O semblante por demais de sóbrio, não denunciava invencionices. Aliás criar um cenário desse porte fugia por completo da capacidade imaginativa dele. Apois tudo se lhe pintava verdadeiro, de uma veracidade impossível de ser colocada em dúvida, quanto mais negada com veemência. No desconforto da situação, melhor procurar Anum Branco. Quase um gênio. Com os irmãos menores montou diversos rádios de galena e distribuía aos menos favorecidos. O pai gastava as horas de folga lendo tudo que caísse nas mãos. Apurava a mente quando o assunto era a União Soviética, sua foice e martelo. Anum Branco entendia as máquinas. A ajuda dele, de enorme valia, não podia ser desprezada. Somariam suas interrogações. No certo teriam bom resultado. Como achá-lo e fazê-lo participar do desvendamento daqueles mistérios sem causar rebuliço na cidade? Nesta época de eleição os chefes políticos conseguiam redobrar o ódio do doutor delegado. O homem devia ser correligionário de todos os partidos. Ficava sempre acima da lei. No dizer dele pra não deixar dúvidas que a justiça era cega, mas enxergava tudo. Não tolerava voz alta nem destempero de ninguém. Prender não podia prender não. Acabada a eleição a cadeia transformava em feira, tamanha a barafunda de vozes. Motivo pra arrebentar os que desacataram a autoridade não era esquecido nunca. A fiança sustentava a família o ano inteiro. Voz corrente na cidade. Os dois careciam usar mais que cautela. Fugir de aglomerações evitando o vazamento das desconfianças. Dar o bote quando as urnas estiverem sendo lacradas. A notícia explosiva percorreria em segundos a cidade alcançando rápida a capital do Estado, daí ao cenário nacional recheada por manchetes espalhafatosas questão de minutos. As televisões ávidas por furos espetaculares enviariam seus repórteres e a parafernália pra transmissão ao vivo. Encontraram Anum Branco e a namorada curtindo a beira do açude. Farreavam à solta. Ele quase bêbado como um gambá. Ela virginalmente sóbria como deve acontecer com moça casadoura. Prevendo o estado que encontrariam o amigo levaram um suco de plantas pra levantar defunto, composto por cáscara sagrada, chapéu de couro, jatobá, alcaçuz, raiz jalapa, fedegoso, catuaba, angico, boldo, velame, jurubeba e anis-estrelado. Dose cavalar num tiquinho d’água. Mexida, remexida no copo, empurraram goela abaixo do abilolado, que de instantâneo botou pra fora a imensidão de mistura de cachaça, vinho, cerveja e farofa. Anum Branco tomou meio copo de café preto. Passe de mágica estava quase são. As novidades não fossem bem contadas causariam retorno ao estado de embriaguez. Magrão foi incumbido de expor a situação, detalhe por detalhe, tim-tim por tim-tim, repetindo calmo as respostas às necessárias perguntas. Agora Anum Branco se recorda. Ao votar notara alguma estranheza, mas deixou passar batido, delegou pouca importância quando a urna engoliu o voto. Ela riu na sua cara. Risada de escárnio, gozação, sabe-se lá o quê mais. O destino uniu os três detetives do cerrado na dura tarefa de desvendar o mistério do desmemoriamento das urnas. Não chegando a ele pelo menos denunciá-lo ao mundo todo. Por menos não ficaria. Horas depois arrebanharam desconfiados eleitores. Restou nenhuma dúvida. As urnas de Santo Antônio do Rio das Antas enlouqueceram. Fome voraz atingiu a vontade delas, mais votos colocassem mais rapidamente desapareceriam sem deixar rastro, sem mostrar razão. Ao findar o dia o sol escaldante cedeu lugar à calmaria da noite. Izebeiju chegou esbaforido à pracinha defronte da igreja. Outros surgiram. Seria um deus nos acuda. Também ele fora vítima do roubo do voto. Solidários, Chico Doido, Sá Genésia, Papa U, Bam-Bam-Bam, Maria Farofa, Nenzito e Burilim se juntaram a eles. Desarmados com o acontecido mal se continham. Maria Farofa distribuiu copada de seu assovio-de-cobra que bebiam escondidos, por trás do busto do governador. Estavam ali, não sabiam a razão, todavia não era por causa das diversas talagadas das águas-de-setembro ingeridas na noite anterior. Passaram pelos quartéis da cidade, sem distinção de partido. O importante era empanturrar à grande com as rodadas incessantes da boa cacharolete. Sem olheiros reprovadores se fartaram. Queriam mais que o mundo acabasse em goladas da arrebenta-peito. O último a cerrar fileira foi Beto. Também pudera há coisa de quatro noites acoitara nas barrancas do cemitério. No decerto pra descabaçar Ornela, morena de olhos amendoados, baitas coxas e seios durinhos como pêssego. Mostrava receio do desaprovo do Magrão. Fudelança só no casamento, antes dele demonstrava safadeza, falta de caráter. Beto cagava e andava pros conceitos e valores do irmão. Respeitava mas não acatava. Izebeiju assoviou e o Nego Sivi aproximou-se rápido, de antena ligada, pronto pra escutar e esparramar as novidades. Por sua boca as notícias corriam, espalhavam no ar mais rápido que a televisão. Um horror de esperteza. Igual que ele só mesmo o Marreta. Tristão Bezerra com autoridade de escrevente juramentado de cartório quis saber as acontecências. Repente a praça era um alvoroço só. Quando o sino da igreja do Rosário picou e repicou as cinco horas da tarde Vidrão, Anum Branco e Magrão apareceram com cara de quem tinha visto o destrambelhado. Bagas de suor rolavam por entre os fios das barbas ralas dos três. Susto, pavor. Enfiaram num vespeiro maior que as mãos entrelaçadas conseguiam pôr fim, dar um basta sem choro nem vela. Transformando caixote em palanque Magrão desabou suas desconfianças e temerosidades. A cada palavra, exclamação uníssona. Incrédulos viam, desviam as mãos do tinhoso tramando, tecendo confusão. Pra não perder o controle da situação os três inseparáveis organizaram comissão a fim de detalhar ao doutor juiz da eleição o havido. Tristão Bezerra investido em sua autoridade de escrivão juramentado pigarreou chamando atenção pro corpo mirrado. Queria porque queria ser o primeiro a anunciar as novas. De procissão improvisada rumariam ao fórum. O fuzuê estava formado. Fileiras engrossadas por onde passavam. O novo. Acontecia o absurdo surrupiamento de votos pelas urnas e ele corria à boca miúda. Urna revoltosa, doida varrida? Invenção de quem? Por mor de que alguém instava arruinar a cidade? Qual vivente seria capaz de vingança tamanha? Mais e mais gente aumentava a procissão do desassossego. A cidadezinha que de tão pacata não crescia arranjaria jeito de sair ilesa da situação revertendo em lucro a artimanha desaforenta? À frente da comitiva, os três inseparáveis controlavam a turba. Logo, logo surgiriam políticos loucos pra serem considerados os pais do desvendamento do mistério. As fileiras engordavam com a chegada dos craques do futebol: Tonho da Nena, Vadô Dois-Cus, Celino, Vatinho, Jão Brasil, capitaneados pela madrinha Dirce da Descaída. Pra maior destempero a furiosa atacou de dobrado inflamando a multidão. Panelaço, buzinaço, velas encimando janelas onde beatas rezavam temendo o fim do mundo. Algazarra, folia, carnaval. Todos andavam a bom andar rumo ao fórum que parecia distanciar ainda mais. Os ingleses da mina Morro do Ouro assistiam assustados. Não passava pela ideia deles entender o motivo de repentina loucura coletiva. Reclamadores da pasmaceira da cidade, viam surpresos a envolvente mudança. Verdade seja dita ninguém queria o fim dos acontecimentos. Talvez Sá Andreza pudesse fazer um feitiço em dose cavalar paralisando o tempo e a balbúrdia continuasse pra sempre, sem perseguição, enfrentamento, descontentamentos. Naquele instante o paraíso era ali, desnudado de mistérios. A multidão serpenteava pelas tortas ruas estreitas calçadas de pedras seculares. Testemunhas de namoros e infindas atrocidades. Juras de amor encimadas por vingança, assassinato. Séculos de história que em minutos poderiam mudar o destino do país inteiro. E se a rainha da Inglaterra, Tio Sam ou mesmo os comunistas comedores de crianças estivessem por trás do fuzuê? Correriam risco de morte os três inseparáveis? No cruzamento da Goiás, Irene com seus cabelos cacheados, um tesão de mulher aguardava a chegada do povaréu. Nest’ora iria grudar-se no Magrão. A safada aproveitaria a situação pra aparecer. Mostrar-se teiuda e manteiuda, sem nunca ser dele por inteira. O som dos dobrados preenchia o vazio. O fazedor de ventos cuidava de dispersá-lo pelos quatro cantos da cidade. Parada alguma botou o povo em frenesi pelas ruas, não antes desta. Não que não fosse patriota. Mas havia um cheiro de mudança no ar. Chegando na confluência das duas ruas principais Gustavinho Bem-Bem muda o repertório da Euterpe, mais ao gosto popular. Homens, mulheres, jovens e crianças saracoteavam ao som da inflamante Alegria, Alegria. As putas da Ferreirinha descambaram do Amoreiras passando pela igreja do Rosário estacando entre a Goiás e a Quintino Vargas, todas com os fartos seios à mostra. Ali não eram muié-damas, mas cidadãs mesmo sem saber com exatidão o havido. Reunidas pra alegria e capricho de Eli Caolho, sedento de luxúria, com dinheiro no bolso, horror de tesão de mal curtidas noites, de pau duro, pronto pra enrabar a primeira que desse chance. Iam os três inseparáveis num marchar sem fim. Amados, odiados por mudarem a história da pacata cidade. No fundo, no fundo estavam lixando pras coisas acontecidas ou por acontecer. Pexico e Robertinho vazaram a multidão. Agruparam-se aos três. Sem medir distâncias, cansados, esfomeados, sonhavam com um naco de pão com manteiga. Como no milagre da multiplicação centenas de sacos de papel com pastéis crocantes, passados e repassados de mão em mão saciaram a fome, repondo energia prum dia que prometia acabar nunca. A lua cheia qual balão de fogo apossou-se do céu de poucas estrelas. Os soldados do doutor delegado perfilados, mãos nas coronhas riam um riso forçado pra multidão que serpenteava avenida acima. O alto-falante da loja de João Turco dizia em bom som que era novembro e não outubro, roupas miúdas, jaquetas em promoção, como se um vivente arredasse os pés da caminhada e enveredasse pelas prateleiras de seu comércio. Velho Neco Galdino, Minerita, Nonô, Maria Dindinha, Auzina, Zau e seo Adriles encorpavam o rebuliço do inesperado, impensado movimento. No deveras os Botelho, gente mal amada pela pobretama toda se vira forçada a rumar com o populacho. Dona Maria Botelho dizia que aquilo acabaria em merda. Foi arrastada avenida acima, amordaçada, como a hora exigia. Pra ela deixar de pose que dinheiro graúdo, do bom a família tinha perdido todo nas mesas de sinuca, bacará, nas camas das formosas donzelas de Ferreirinha. Come lambari e arrota bacalhau. Portassem armas, não o título de eleitor, seriam todos confundidos com revoltosos de qualquer canto do mundo. Sem querer outras conversas iam avançando pela avenida. Inda não houve adesão de políticos. Por certo os engravatados e preguiçosos esperavam a multidão na praça do fórum sem gastar energia, cansar as pernas, ávidos por assumirem o comando do espontâneo movimento. Atenção voltada pra outros pensamentos Magrão não deu a mínima pelota pra Irene que chateada pelo pouco caso do enrabichado soluçou baixinho. No palanque armado às pressas já se empoleiravam o prefeito, vereadores, o bispo, um candidato a deputado estadual pela região e o doutor delegado. O cenário era de velório, tamanha a estrovenga notícia. Apenas o doutor juiz da eleição não comparecera. Dentro do fórum tinha os olhos pregados na televisão. A qualquer momento uma edição extraordinária aconteceria, não queria ser apanhado de surpresa. O fato devia ter atravessado a imensidão do cerrado. Lá fora o barulho ensurdecedor dividia suas preocupações. Os três inseparáveis e sua comitiva apossaram-se da praça. Subiram no palanque, não sem antes expulsar os que lá se encontravam. Exigiram a presença do juiz. Silêncio inaugural percorreu as ruas adjacentes quando Magrão recém-nomeado porta-voz dos descontentes convocou a autoridade pra ouvir denúncias. Durante quinze minutos expôs a insegurança das urnas. Contou o sofrimento de Vidrão, a certeza de que a eleição tinha sido fraudada. Urgia tomada de decisão do juiz eleitoral. Escarafunchar as urnas, descobrir se as suposições encerravam algum cunho verídico. Juiz e representantes do povo rumaram ao auditório do fórum onde vistoriariam as urnas. Os meganhas do doutor delegado bateram continência pro juiz em reverência de imediato repudiada, pois o homem não era muito chegado a tais salamaleques. Três ou quatro especialistas em informática, todos do Tribunal Regional Eleitoral, foram convocados às pressas e testavam os equipamentos. Foram mudando de cor. Corriam de um lado pro outro, conferindo dados, expondo angústias. Sem nenhuma razão aparente as urnas tinham enlouquecido. Engoliram os votos dando um chá de sumiço neles. Centenas e centenas delas intatas. Virgenzinhas da silva, nunca foram descabaçadas por um voto sequer. A confusão estava formada sem haver meios pra escondê-la dos olhos e ouvidos da nação. O juiz como caminhando pra forca telefonou ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral comunicando o tresloucado acontecimento. Em menos de uma hora helicópteros das mais variadas emissoras de rádio, televisão, jornais e agências noticiosas tomariam conta do espaço aéreo de Santo Antônio do Rio das Antas. A parafernália eletrônica pra transmissão ao vivo logo abarrotaria a praça do fórum. A cidade seria manchete nos principais veículos de comunicação do país e das estranjas. Ovacionados pela multidão, os três inseparáveis aguardavam a volta do magistrado com instruções da Capital Federal. O burburinho corrente incriminava o presidente da República como mandante da chacina dos votos. Principal interessado na derrota do candidato da oposição empregou todos os meios para inocular vírus quase indetetável na memória de cada urna eletrônica. A dose virulenta superou o estimado e desejado. Bem antes da meia-noite não havia espaço vazio na praça do fórum e cercanias. Repórteres gritavam ordens pra cinegrafistas. Um descabimento de vozes, alvoroço condizente com o tamanho do acontecimento. Luz, câmera, ação. Um foco de azul intenso engole a fachada do fórum e o palanque. Dali sairia a notícia perturbadora. Fez-se silêncio mortal quando o juiz saiu do prédio da justiça eleitoral anunciando que o vírus denominado DP27OUT fora inoculado nas urnas eletrônicas de Santo Antônio. Na conexão com o centro de processamento de dados do Tribunal Superior Eleitoral aconteceu a contaminação geral apagando todos os votos. O país estava à beira de um conflito. Fraudadas as urnas um terceiro turno aconteceria. A multidão descontrolada, enraivecida, urrava palavras de ordem pelo impeachment do presidente da República. Rebelião iminente explodiria até o raiar do sol. A uma hora dessas ou o presidente fugira ou o palácio estava cercado, até mesmo em chamas. Notícias desencontradas reportam que temendo reação descontrolada da população saíra deixando a Capital Federal em verdadeiro pandemônio. Dias passados corre à solta que no exílio forçado, verificando suas contas em paraísos fiscais descobriu que piratas de computadores saquearam seus depósitos bancários...